quinta-feira, 29 de outubro de 2009
todo mundo tem noção do seu limite, ninguém sai por aí puxando assunto com estranhos ou expressando suas opinões sobre a vida. as crianças e os loucos não têm limites, o mundo é deles. os bêbados também tentam, bebem umas e o mundo fica leve leve, todo mundo é boa gente. já as pessoas normais ficam dentro de si a maior parte do tempo até se depararem com as
SITUAÇÕES LIBERTADORAS DE MONÓLOGOS INTERIORES
ontem nos últimos assentos do ônibus estava um desses solitários, pasta na mão, coluna ereta, cenho inexpressivo, corpo sacolejando. foi só o ônibus passar num buraco, geral ser jogada pro alto, e o indivíduo começar a falar que fora do brasil os ônibus não fazem nem barulho, que tudo é limpo, que na alemanha quem picha um muro é chicoteado em praça pública, que a cidade recebeu dinheiro dos gringos para limpar as ruas mas elas ficam cada vez mais sujas, etc etc.
um olhar de afeição e ele já parte pra vida pessoa, da família, dos amigos, dos sentimentos. pra quem ele falaria isso? a neurose é, antes de tudo, falta de comunicação. uma sociedade doente é uma sociedade com a comunicação emperrada. só mesmo no século XX poderia surgir essa estranha profissão que recebe pra escutar pessoas.
a psicologia social manda mal. ela se esburaca formalizando obviedades entre o social e o subjetivo. deveria é desenvolver métodos audaciosos para a promoção de SLMI.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Tem hora que incomoda. Parece um tio bêbado chegando numa ceia de Natal e revelando os podres que todos sabem mas mascaram.
A diferença é que Mainardi não é bêbado nem espalhafatoso. É sóbrio. É mais transgressor que qualquer revolucionário que o chama de reacionário.
Li um pequeno romance dele um tempo atrás, de uma vez só, dentro de uma livraria. Não gostei porque achei sem graça, não entendi porque precisava de alegorias para falar da vacuidade da vida ou da estupidez humana.
Ele fala que nunca mais vai fazer literatura, e que tem apenas um conselho para os jovens escritores: não escrevam.
Em suas crônicas Mainardi se realiza literariamente. Falar como as coisas são parece ficção.
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Meus amigos falavam que eu nunca ia trabalhar, ia viver de renda. Quando uma pessoa não gosta de trabalhar é chamada de "boa vida", o que só revela que trabalhar é um saco.
Precisar que alguém nos diga o que somos é um problema psicológico. É triste encontrar pessoas que precisam trabalhar para ser alguém na vida. As pessoas envelhecem burras porque ousam em querer ser alguém.
Já pensei em trabalhar, ser alguém na vida, ter um nome embaixo do meu nome se por acaso me entrevistassem na rua. Já até pensei se minha inapetência pra vida prática (vagabundagem) ou minha incerteza em escolher qual faculdade seguir era conseqüência de nunca ter entendido o que meus pais faziam.
Agora eu quero trabalhar, mas por outros motivos.
Quero trabalhar pra me distratir, pra oficializar minha zombaria, pra ganhar tempo, pra apenas fazer as coisas bem feitas e falar menos, pra finalmente ser ninguém.
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Mainardi é um anarquista. Ele defende o fim do Estado. Propõe a privatização de tudo: ensino, segurança, saúde, transporte. Eu concordo.
Se o Brasil tem a maior carga tributário do mundo e nenhum desses setores funciona, alguma coisa está errada. Invés de pagarmos impostos vamos consumir direto da fonte.
Tem um miolo filosófico nisso tudo que eu não entendo, sou um ignorante no assunto. O Estado realiza uma operação sobrenatural: legitima que pedaços de papel possam ser trocados por bens e serviços, estabelece fronteiras e impõe um número para cada pessoa.
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O fim do Estado só será possível quando as pessoas souberem quem elas são, o que querem, do que gostam e de como gerir suas próprias vidas.
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O Estado é uma idéia ultrapassada, da época que em que a pessoa não existia muito bem, esse lance de invidualidade é recente. A pessoa não sabia o que era melhor pra ela, precisava de algúem para orientar. Isso acabou, saímos da infância. Ainda hoje o Estado finge que ensina e fingimos que aprendemos.
Fazendo jus ao nome do blog (que é uma piada interna comigo mesmo), posso dizer que o Estado é consequência de uma aglomeração de neuróticos que nunca se libertou do Outro.
domingo, 18 de outubro de 2009
O velho montou um sotão no galinheiro onde joga ovos que ao quebrarem produzem um combustível poderoso. Alguns ovos não quebram e geram galinhas assassinas que volta e meia descem para matar os visitantes e outros galinácios.
O cuidados dos filhos e netos em manter a ilusão da invenção é comovente. Diariamente ele visita o galinheiro para arremessar ovos no sotão onde galinhas diabólicas espiam o chão dentro da penumbra.
Isso é serio, se eu não tivesse sonhado teria inventado.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
terça-feira, 29 de setembro de 2009
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o motivo que leva uma pessoa a procurar uma terapia é o mesmo que a leva a sofrer: se dar muita importância.
o motivo que a leva não precisar mais de terapia também vai coincidir com o motivo que a faz ter uma perspectiva de uma vida com menos sofrimento.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
domingo, 13 de setembro de 2009
Eu tava sentado numa pracinha quando de repente percebi que nos bancos ao redor estavam monges e monjas descalços com aquele manto marrom escuro e a cordinha (qual o nome disso? cinto de pano monástico?) balançando na cintura. Do lado um começou a recitar padre antônio vieira, alguma coisa sobre coisas visíveis e invísiveis, e um deles começou a dedilhar o violão e a rezar. Um deles tomou a palavra e disse que iria abandonar a congregação, que não suportava mais o caminho estreito, o caminho dos espinhos, da dor e do sofrimento. o céu não existe meu caro, toda metafísica é uma reunião de desejos adiados...Volta e meia eles choravam, se abraçavam, e faziam uma piada, e ato contínuo: "essa foi pra descontrair hein galera". esse comentário é a síntese do século XX: a consciência amortecida pela piada dobrada em si mesma. O que é rezar? que desculpa é essa pra falar sozinho sem parecer louco? É um desamparo semelhante de quando a gente é pequeno e o mundo é muito muito grande, grande e incontrolável e a gente é pequenininho e acreditamos em fantasmas e estamos formando a noção das coisas que acontecem e das coisas que não acontecem. Falar sozinho é querer ser ouvido pelo passado. A religião é nossa região onde o conforto (vinhetas da TV, iluminação das avenidas, estádios de futebol lotados, almoços de domingo, sexta-feira depois do expediente, concertos de rock, sexólogas desenvoltas, informes publicitários) não chega. A sanidade de uma civilização pode ser medida em como ela ilumina nosso desamparo. A psicanálise é uma religião não porque os psicanalistas e suas instituições se parecem com igrejas (hierarquias, dogmas, ritos), mas porque ela tenta capturar o desamparo sem roupas, quer dizer, ela quer conhecer as regras do jogo mas logo aprende que a vitória e a derrota não exista lá fora , é tudo aqui dentro mesmo, batendo e voltando e tem um conceito que é como viver com lucidez sem sem cínico, esqueci o nome, mas é uma espécie de distração focada, uma curiosidade em alerta, o fim de qualquer hierarquia dos discuros, a indiferenciação, o Caos do Porto, acreditar no tempo e no vazio das palavras, e inevitavelmente se tornar um poeta. Uma monja bagunça meu cabelo e pergunta se tô escrevendo um livro. Respondo que escrever um livro é muito escrever-um-livro, que tô apenas me divertindo, e que se fosse escrever um livro seria de histórias que nunca virariam livros.
sábado, 12 de setembro de 2009
deve ser porque esse negócio de ler seja coisa de criança mesmo.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
é ter o poder para realizar as coisas.
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chamar alguém de arrogante é uma arrogância. ser arrogante é ser. chamar alguém de egoista é um egoísmo, geralmente é porque a pessoa não fez aquilo que você acha que ela deveria ter feito. o egoísmo na verdade é só uma ignorância, a incapacidade de sair de si mesmo e brincar com a realidade.
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esses dias passei em frente de uma pista de skate que tinha a seguinte pichação:
"vivemos numa realidade virtualizada ou numa virtualidade real? ou os dois? ou nenhum dos dois?"
realidade e virtualidade são a mesma coisa. não existe um Outro Lado. só existe isso aqui mesmo. ficar se perguntando se isso aqui é real ou virtual é uma moléstia neurótica transformada em filosofia.
nossa língua nos brinda com um verbo muito interessante: HAVER.
sábado, 5 de setembro de 2009
o "não fazer nada" é fazer a coisa mais antiga que fazemos: fazer nada. a função da cultura é distrair. distrair não dos maléficos planos do capitalismo selvagem, mas desse território vazio do tempo.
ansiedade, stress, síndrome do pânico, paranóia, fobias, doenças psicossomáticas. o século passado tornou a doença um charme, uma sofisticação. a psicanálise contribuiu para isso. a doença é apenas um ressentimento pelo sofrimento. sofrer de verdade é não querer sofrer.
ser normal, banal, acreditar, não julgar, não achar nada, pensar na morte todos os dias, se tornar um ânonimo.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
eu tenho ouvido outras variáveis aí: que o mundo gira em torno do sexo, ou do poder, ou da ambição, ou do amor, esses últimos se subdivindo na categoria de poetas ou de pastores evangélicos.
aí o cara duvida de tudo isso, vai desconstruir as camadas do mundo, vai querer saber o que move as pessoas, porque na verdade ele quer saber o que move ele mesmo, o que ele quer da vida, e não quer se sentir sozinho, quer saber o que as outras pessoas buscam também.
vai procurar uma explicação religiosa, econômica, sociológica, evolucionista, psicológica, mas não vai se contentar com nada. ele não quer teorias. ele percebe que tudo só é um ponto de vista diferente sobre uma mesma coisa.
fica um pouco estarrecido mas no final aceita a leveza redentora: o mundo gira em torno de nada. quer dizer, cada um escolhe em torno de que seu mundo vai girar.
isso confere ao investigador da realidade uma incômoda sensação de superioridade, como se ele descobrisse que o jogo que todo mundo leva a sério fosse uma brincadeira de mal-gosto.
ultrapassada a ilusória sensação de superioridade, só resta a compaixão por descobrir que ele próprio é vítima da brincadeira de mal-gosto.
essa brincadeira de mal-gosto, que é o fato da gente não ter nenhum controle sobre mo mundo, que no fim das contas é o fato da gente viver e ter que morrer, precisa ser esquecida a todo momento.
tentar esquecer isso é adiar nossos sonhos. adiar os sonhos nos dá uma sensação de eternidade, como se sua vida verdadeira, seus devaneios, seus sonhos, fossem ser vividos quando você morresse.
não que as pessoas vivam vidas falsas, não é isso. é que é tudo muito rápido pra gente fazer tudo que a gente quer. a gente faz nossas coisinhas no dia a dia, mas isso não é suficiente, você sabe disso né.
o negócio talvez seja enxergar que essa brincadeira de mal-gosto na verdade não tem gosto nenhum. a vida e o tempo não tem nada a ver com a gente. a indiferença do tecido da vida, essa coisa que a gente se apega, sacudindo, querendo encontrar alguma resposta, não tem resposta nenhuma pra dar.
essas respostas são só umas historinhas que a gente conta pra gente mesmo.
talvez isso seja a única coisa que nós temos.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
acabei de ler um livro curioso: UMA COMOVENTE OBRA DE ESPANTOSO TALENTO, autor dave eggers. ele é recheado com todos esses tags que me chamam a atenção: tédio, ironia, anos 90, sentido da vida, solipsismo, angústia, metalinguagem, superação da ironia.
as primeiras cinquenta páginas é um prefácio em que o autor explica que o livro é autobiográfico e que ele está consciente de todos os truques utilizados no livro nos fazendo inclusive o favor de listá-los.
a todo momento ele tá querendo dizer que tá compensando sua falta de talento sendo sincero, e que só por fazer isso o livro já tem algum valor.
ser sincero realmente virou uma transgressão. acho isso bom.
ele poderia tá escrevendo um ROMANCE SOBRE UMA GERAÇÃO, mas preferiu escrever sobre a vida dele. tá ok, dá no mesmo.
ser artista virou falar em como é ser você mesmo.
em menos de um mês dave eggers perde seu pai e sua mãe e passa a VIVER aquilo que já foi devaneio de toda criança/adolescente normal: o que fazer se meus pais morressem AGORA?
o livro não é tão bom assim não. no prefácio ele explica isso, que a partir da página 272 ele fica meio fraco, e que a gente poderia parar por ali mesmo.
mas eu quero chegar no seguinte ponto, que pra mim é o ponto central do livro:
SUA VIDA É DIVERTIDA OU SUA VIDA É CHATA?
essa é a única pergunta importante desse século.
o afunilamento decorrente da destruição do céu e do inferno.
(inclusive a invenção do céu e do inferno foi devido a falta de entretenimento de nossos antepassados. acreditar no capeta dava emoção.)
não tem como fugir: fomos mimados pelo entretenimento, nunca foi tão fácil se entediar.
isso é contraditório. tanta coisa oferecida e tanta gente insatisfeita. teses de centenas de páginas são elaboradas sobre isso.
mas o livro tem uma teoria legal.
segundo ele tem dois tipos de pessoas no mundo: as pessoas chatas e as pessoas auto-obcecadas.
quer dizer, o livro poderia dizer pessoas chatas X pessoas legais, mas o caso é que todas as pessoas legais são auto-obcecadas.
o que é uma maneira sincera e direta de falar das pessoas que são obcecadas pela vida.
só quem perde algum tempo dentro de si é capaz de descobrir o que quer.
e descobre que no fim das contas o sentido da vida é a diversão.
faça o que quiser com essa palavra aí.
as pessoas chatas reclamam da vida.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
sei lá, só achei que eu devia contar isso.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
mas pelo que eu entendi a infância vai acabar porque o acesso as informações ficará tão fácil que as crianças vão se auto-educar, não precisarão mais de família ou escola para aprenderem as coisas. se transformarão em adultos pequenos, prontos para o que der e vier, imersos desde cedo na bobeira do mundo.
NUNCA LI TANTA MERDA NA VIDA.
desde quando as crianças querem aprender alguma coisa?
tudo o que foi aprendido na infância foi introjetado por uma questão de sobrevivência e necessidade. necessidade de comida, de bunda limpa, de amor.
NÃO, o ser humano não nasceu pra ser feliz nem triste, nem coisa alguma.
isso tudo foi inventado pela gente mesmo.
deve ser porque é extremamente chato ficar sem fazer nada.
sábado, 22 de agosto de 2009
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
malhar-para-ficar-gostosona-e-arrumar-um-marido-rico.
eu disse que não é bem assim, que elas não pensam isso dessa forma, que isso tudo é automático, não consciente. ninguém fica pensando nisso.
tô contando isso pra dizer que tudo aquilo que é automático, tudo aquilo que é puro comportamento, incorporado na vida sem nenhuma reflexão, costuma parecer um tanto fraudolento quando é atingido pelas luzes das narração.
e tô dizendo isso pra ressaltar do papel sagrado que as narrativas (cinema, literatura...) possuem hoje em dia de dignificar o prosaico.
diante do declínio de qualquer manutenção coletiva do sentido-da-vida só aquilo que atinge o íntimo da individualidade de maneira polissêmica pode enriquecer a vida e as relações entre as pessoas.
não sei se fui muito claro né?
tô querendo dizer que se existe uma função na literatura além do mero entrenimento é fornecer aberturas na narração que todo mundo faz da vida o tempo todo.
e que o sofrimento é narrar o mundo com frases categóricas de sentido absoluto.
a alegria deve ser a surpresa da cascata de possibilidades de cada situação.
domingo, 16 de agosto de 2009
uma ação só pode ser considerada ética ou não pelo seu príncipio, o que a causa.
a consequência de uma ação é infinita, ela se perde. toda e cada ação é infinitamente boa e infinitamente má.
se existe um problema na ética hoje em dia é que as pessoas não conseguem muito bem se apropriar do príncipio de suas ações.
há um descompasso entre o mundo saturado e o ego sedento por realizações.
estamos carentes de algo que componha os princípios.
como ninguém acredita mais em nada, resta o cinismo.
e o cinismo só empurra o julgamento das atitudes para a consequência.
o apego a essa valor é o maior responsável pelo mimimi generalizado das relações humanas.
é achar que o mundo sempre encosta em você.
que toda consequência dos atos das pessoas a sua volta te atinge.
a afirmação do nosso egoísmo deve ser feita não para que afundemos nessa nossa condição, mas que reconhecemos isso que acontece o tempo todo e que ninguém percebe: eu estou confinado em ser um que não é você.
a partir daí cada um deve conhecer o que o motiva, tentar ser transparente em suas comunicações, para então efetivamente realizar uma troca com outra caixinha humana que está confinada em ser um que não é você.
mas pelo visto há uma preferência pelo egoísmo das antiga, esse que equivocadamente cisma que as coisas que acontecem tem alguma coisa a ver com sua própria caixinha.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
- achar pizza esquecida na geladeira
- achar dinheiro em bolso de calça
- passar três dias sem pensar em bater punheta e no quarto dia encontrar sua musa da adolescência na rua
- ter um sonho com uma história enorme, acordar no meio da noite achando que já é de manhã, olhar pro relógio e ver que ainda nem passou da meia noite.
QUATRO PRODUTOS QUE QUANTO MAIS BARATO MELHOR É A QUALIDADE
- ovo de páscoa (aqueles com gosto de parafina)
- pipoca de microondas (parece que ficam mais oleosas)
- guaraná
- ketchup (são mais adocicados)
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
- neguim se queiSCHA que a favela só fala de arma, treta, bunda...neguim queria que a gente falasse sobre o que? SOBRE A ALVORADA? a gente fala da nossa REALIDADE POXA, nossa poesia é essa entendeu, porque nossa realidade é essa.
pessoal monomaníaco esse. se não bastasse VIVER isso tudo, eles fazem questão de ESCREVER isso tudo???
MONTAGEM DA ALVORADA JÁ!!!
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esses dias vi um documentário sobre E.M CIORAN. Nunca li nada dele, mas quando vi na resenha que ele era O MAIS NIILISTA DOS FILÓSOFOS e que o documentário "procura resgatar sua infância na TRANSILVANIA", achei que poderia ser interessante.
ele se considera o mais lúcido dos homens, viveu todo o tempo achando que todos os seres humanos eram ingênuos, menos ele. maldita solidão.
com sete anos o mequetrefe ficou amigo do COVEIRO da pequena cidade da ROMÊNIA, e toda semana o coveiro gente boa o agraciava com um CRÂNIO que ele utilizava para jogar bola SOZINHO.
aos 15 começou sua obsessão pela morte e a sofrer de insônia.
ele diz algo interessante sobre o sono: uma noite bem dormida e o acordar no dia seguinte é a renovação da vida, é uma vida nova. o insone fica aprisionado num constante estado de vigilância consciente, não conseguindo compartilhar uma renovação que se instala na vida de todos que dormem.
em determinado momento ele diz que toda sua obra é TERAPÊUTICA. que ele a produziu pra se livrar da obsessão de pensar na morte em cada segundo de sua vida.
ele diz que não se curou, apenas ficou cansado.
perguntam pra ele se sua obra não é uma obra de um adolescente curioso que leu demais e que nunca superou o espanto de estar vivo.
domingo, 9 de agosto de 2009
"Não havia em Sebastião nada dessa atitude preconcebida de mandar às favas os preconceitos sociais. Bem sabia ele que alardear desdém por um código moral não era senão uma espécie de presunção contrabandeada e de preconceito virado às avessas."
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Contudo, apesar de possuirem um público semelhante, Joyce e Nabokov são na verdade dois escritores muito diferentes no estilo e na sua concepção da literatura. Tais diferenças se tornam evidentes na crítica nabokoviana a Joyce. Para Nabokov, Joyce "exagera o lado verbal do pensamento"; ele lembra que as pessoas "não pensam sempre por meio de palavras, mas também por imagens, enquanto o fluxo de consciência pressupõe um jorro de palavras que podem ser anotadas."
Joyce era um músico frustrado. seus livros são músicas.
Nabokov era um pintor frustrado. seus livros são pinturas.
engraçado a literatura, a mais rudimentar das artes, ser capaz de concentrar em papel e tinta um simulacro daquilo que se chama Vida.
a literatura sempre vai ter como tema a frustração. não a frustração do autor, mas a consciência da banalidade de tudo que é humano em relação a magnitude do tempo e do universo.
(se você tiver lendo isso depois do almoço, depois de ter suado andando pelas ruas, depois de ter ouvido o boa noite do jornal nacional, depois que um carro passou anunciando o circo que chegou na cidade, depois de qualquer momento em que o ruído da humanidade entrou pelas frestas do seu quarto, etc etc, não vai ter o menor efeito. mas eu tenho certeza sim, que pelo menos uma vez na sua vida, você também teve a consciência da banalidade de tudo que é humano em relação a magnitude do tempo e do universo.)
se não existisse essa frustração bastaria viver. mas só quem sabe viver são os animais.
a gente faz drama, arruma boas e más confusões, e escreve livros.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
a primeira coisa que eles deviam ensinar nesses cursos de formação em psicanálise não é nada de psicanálise. é de como o mundo se estrutura através da linguagem.
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atenção jovens, a única pessoa que tem o mérito de ganhar a alcunha de pseudo-intelectual no brasil se chama José Sarney.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
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ler nabokov (ainda estou no meu terceiro mas coletando tudo que encontro pela frente)deve ser o ápice do prazer praquelas pessoas que gostam de ler histórias imaginando os personagens, os lugares, as feições, os diálogos.
acho que é exatamente o contrário de ler guimarães rosa. enquanto este fecha numa abstração intuitiva, onde o que faz sentido não são imagens, mas sons, aquele derrama nas palavras um punhado de tintas para pintarmos cenários tão reais quanto nossas lembranças.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
(ontem foi aquele oriental caduco, içami tiba, inimigo meu.)
todos se esquecem que da mesma forma que a adolescência aumentou, aumentou também a cronologia da vida adulta e da velhice.
(alguns maquinam que o objetivo do capitalismo feioso é tornar a vida uma adolescência eterna, mas não quero comentar isso agora.)
eu só quero meu direito de ser adolescente até os 30 e de ser chamado de idoso apenas depois dos 85. nossas mulheres ficarão enxutas até os 70.
alguns falam que as pessoas ficarão mais frívolas, fúteis ou vaidosas.
não tem como reclamar de nada hoje em dia. tem gente e coisas de tudo quanto é tipo. vá procurar sua turma.
acho que as pessoas se casam e começam a trabalhar tão cedo por impaciência de achar que a vida é curta.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Caros amigos alienígenas,
Como dá pra perceber, a Terra foi devastada. Vocês não encontrarão nem vida nem vestígios. O negócio foi feio mesmo. Entretanto tenho confiança que através de algum sinal vocês encontrem a INTERNET.
Dentro dela vocês encontrarão toda nossa história. Cuidado para não clicarem no link “SANDY DANDO O CÚ”.
Se chegaram até aqui, se contentem com minhas abobrinhas e uma pequena notícia veiculada num jornal brasileiro, meu país de origem, no dia 28 de julho de 2009.
É minha tentativa de explicar o início do fim.
A INTERNET deve saciá-los por alguns anos-luz.
Abraços, Marcelo
segunda-feira, 27 de julho de 2009
logo quando descoberta, atraiu a atenção de toda a comunidade científica ávida por resolver os enigmas da linguagem, da socialização e daquilo que nos faz humanos.
não chegaram a nenhuma conclusão. todos ficaram visivelmente alterados com a presença da menina, todos estabeleceram algum tipo de vínculo emocional com aquele ser, impossibilitando um trabalho mais sério.
o detalhe mais revelador é como ela não tinha uma percepção corporal muito clara, o que só reforça a teoria que nós não temos um corpo igual qualquer mamífero tem.
o nosso corpo está subordinado a linguagem, e toda tentativa de civilização foi uma forma de nos livrarmos de um resto biológico sem simbolização.
a dicotomia CORPO x MENTE não existe. é só "MENTE" e mais uma coisa que só existe pelo avesso.
domingo, 26 de julho de 2009
segundo ele, de degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.
eu posso pensar que a tendência da inteligência humana é reduzir cada vez mais a linguagem, se tornar cada vez mais prática, mais eficiente, dizer tudo com menos palavras.
ou posso achar que a tendência da inteligência humana seria aumentar cada vez mais o vocabulário, ter mais chance de dizer as mesmas coisas de sempre das mais variadas maneiras possíveis.
quero achar que quem pensa da primeira forma tende a ser uma pessoa cínica, metódica e com uma misteriosa atração pelo controle e pelo poder.
sábado, 25 de julho de 2009
vocês não acham que quem pensa isso não está se importando muito com isso tudo?
pra que reclamar disso?
pra que insistir em criar um pano de fundo onde as ações se desenrolam?
não se passa nada na cabeça dos outros.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
terça-feira, 14 de julho de 2009
suco de nada com meia e chinelo produções apresenta:
MEUS DEUS! PEIXES MORTOS!
Notícias veiculadas no jornal O Globo em algum dia de junho de 2009.
Não sei explicar porque o peixe resolveu procurar canos dos aquários para cair na tubulação do esgoto e caçar crianças para comer.
Mas vou contar...
Início da noite de sábado, uma criança, nove anos, se dirige ao banheiro, senta na privada, suas perninhas frágeis balançam em cima do chão, o peixe se espreme pelos canos, peixe-anfíbio, se contorcendo na subida, suas escamas são braços, suas brânquias são cordas. Um ruído não assusta a criança, ela gosta de privadas.
Mal sente a primeira mordida que destroça seu glúteo direito. Seu corpo é puxado e sugado para a tubulação, peixe-cobra, seus gritos não vão acordar seus pais. Em poucos minutos seus ossinhos já estão mastigados. Quem chegasse no banheiro agora ia ver duas sandalinhas emparelhadas em frente a privada cuja água se chama sangue.
Essa cena com as devidas variações de vítimas, azulejos, cisternas, cores e consistências de glúteos infantis, se repetiu centenas de vezes. Um comitê foi formado, boatos não lançavam nenhuma luz sobre os casos. Privadas se transformaram em buracos negros, o que levou todas os pais a comprarem caixas de areia dos gatos para seus rebentos urinarem e evacuarem.
Enquanto isso o peixe seguia faminto pelos esgotos, controlando a aproximação de um glúteo, analisando a chegada da bunda como um astrônomo observa um eclipse solar, bundas eclipsandoo as luzes bruxuleantes dos banheiros cariocas.
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Ninguém sabe por que Emílio resolveu matar peixes. Um dia chegando em casa após uma viagem de sete dias, ele encontrou cinco peixes, todos os seus cinco peixes se debatendo no chão em frente ao aquário. Quando viu aqueles cinco pedacinhos de carne se debatendo dando cambalhotas em volta de poças marrons de suco de ração, Emílio decidiu se transformar num assassino de peixes.
Durante a noite ele pensou na fragilidade dessas criaturas, de como tirar peixes da água é como soltar pessoas numa fossa abissal. Peixes morrem afogados de ar.
Numa madrugada de sábado para domingo, Emílio invade o Parque Lage, para em frente ao vetusto aquário onde no centro se ergue uma Minerva com seu Vaso. As fontes estão desligadas. A lua ilumina a movimentação de cores no fundo do aquário. Os peixes se agitam, como se presentisse a presença daquele que há meses vem invadindo pet-shops, residências, exposições, parques, zoológicos, desligando bombas, ceifando aquários com redes só para observar atentamente os peixes se afogarem de ar.
Ele invade a casa de máquinas, desliga a bomba, senta na mureta extasiado, e aguarda o oxigênio esfarrecer, primeiro eles ficam inquietos, balançam de um lado para o outro, depois os movimentos vão cessando, ou melhor, a dança frenética é substituída pela invisível corrente que vagarosamente empurram os cadávares sem direção num macabro balé aquático.
Uma tilápia branca, única dentre laranjas e marrons, chama a atenção de Emílio. Quando ela chega à superfície Emílio se aproxima e observa o peixe. Sua brancura é diáfana, e por trás de suas escamas que parecem uma luva cirúrgica esgarçada, Emílio não enxerga apenas nervuras e orgãos.
Tem um braço dentro do peixe que sob a luz da lanterna que Emílio dirige à borda, onde a tilápia branca dança, se revela um minúsculo braço humano, como se o absurdo da situação não fosse o braço em si, mas um braço de criança devolvido à condição de feto.
Como se aquele peixe fosse uma reprodutora de braços humanos, e que o bracinho imaculado fosse os primórdios do desenvolvimento embrionário de uma estranha raça de Braços-Vivos.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
talvez. só acredito na possibilidade de uma postura em que a todo momento a pessoa possa reconhecer aquilo que houve com a distância necessária, como se tivesse sido outra pessoa.
um tempo atrás eu tava pensando que o que faltava aos políticos brasileiros era eles lerem dostoieviski. pra não terem vergonha de falar que roubaram mesmo, que eles são fracos e gananciosos mesmo, que o poder corrompe, que eles se acham no direito de confundirem o público e o privado sem nenhuma culpa, que, apesar de tudo, eles são boas pessoas, ajudaram muita gente por aí. queria vê-los chorando, ajoelhados, implorando perdão, confessando todos os erros.
garanto que todo mundo ia entender. a afirmação da nossa podridão é o único caminho para um mundo mais ético e responsável.
a transparência é a união, um tipo de compaixão pela nossa miséria, um glória a nossa irracionalidade, esse encosto que tá dentro de mim e de você.
domingo, 12 de julho de 2009
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mas eu tô te contando isso pra mostrar que o problema da psicanálise não é teórico, é real. problema no sentindo dela nunca conseguir se institucionalizar totalmente, justamente porque ela mexe com o hiato entre o ego e o mundo. qualquer coisa que ela fala não tem como transmitir, a não ser na história de vida da própria pessoa que escuta. conviver com pessoas que não sonham é um saco...
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chega um momento no curso de psicologia em que as pessoas começam a falar se gostam ou não da psicanálise. é um momento bem constrangedor.
ninguém escolhe gostar ou não da psicanálise. é uma opinião antecipada sempre. todo mundo passa por ela de certa forma. o que quase ninguém entende é que a cura na psicanálise é a própria destruição da teoria. os fios do marionete são cortados. falar que a psicanálise é uma bobagem pode ser um bom sinal...
sexta-feira, 10 de julho de 2009
suco de nada com meia e chinelo produções apresenta:
"MORRO DE AMOR e MORDO DIAMANTE" - chacal
ou
- uma patética tentativa de juntar novela das oito, os diálogos horrorosamente sentimentais dos filmes do Arnaldo Jabor e putaria; escrito ressacando moralmente em alguma manhã de domingo de 2007.
"E depois de fazer tudo que fazem, levantam-se, tomam banho, cobrem-se de talco, perfumam-se, penteiam-se, vestem-se, e assim progressivamente vão voltando a ser o que não são." - Júlio Cortázar, Amor 77.
Aquele que não pode esperar não pode se desesperar. Eu sou jovem e desesperado. Me chateia pessoas de menos de trinta anos tentarem serem serenas, razoáveis, calmas, comedidas. Eu não sou um apologista da molecagem e da irresponsabilidade. Sou só um cara que o coração sempre bate forte. Qual o nome disso, você sabe?
Tento levar uma vida indolor com meia dúzia de rituais, hábitos e certezas. Meu nome é Júlio Caldas e não acredito em mulheres com prisão de ventre, aquelas que acordam emburradas e só falam depois do meio-dia. Acordei com um sonho fresco na cabeça. Volto pra cama de pau duro, fecho os olhos, e ainda sinto o barulho do riacho, o sorriso da Débora Secco, duas déboras seccos, déboras seccos gêmeas, sorridentes, de camisolinha, de cócoras, na beira do riacho num bosque. Me aproximo, sorrio, elas sorriem, vislumbro um nesga de sol regando os tufinhos castanhos da bucetinha, coloco dois dedos: ensopadas. Elas sorriem, morro de amor.
Saio de caso, rua barulhenta, tô feliz e de ressaca, vou encontrar Glorinha, Glorinha é minha amante, aliás eu sou o amante dela, dialogamos em carioquês, tudo isso aqui se passa no rio, tudo isso aqui já foi mostrado antes, mas não sou zona sul, nem pessoas maquiadas. Eu sou o áudio dos filmes brasileiros dos anos 80. A voz da Glorinha é a voz da Fernanda Torres com Lígia Brondi, minha voz é uma mistura de Francisco Cuoco com Antônio Fagundes. Eu sou dentes amarelados e mulheres que fumam e riem alto, bebem, escutam os afrosambas do vinicíus e do badel powell e se orgulham de sofrerem de amor. Pessoas que não conseguem trabalhar porque amam demais. Pessoas constrangedoras, sua tia meio maluca que você só entendeu depois dos vinte anos.
Pego Glorinha para almoçar, toco o interfone, ela desce, Glorinha com olheiras, trinte e sete anos, fala três porras em cada dez palavras, pego sua mão, andamos meia hora até o restaurante, conversamos:
- olha que dia bonito dona glória, eu te amo.
- tô sem fome mas com sede...
- vontade de comer uma comida quente com uma jarra de suco de laranja.
- por que você é assim Júlio Caldas?
- a vida não é uma novela Glorinha.
- antes deu te entender eu não acreditava em você entende, achava que você era só um cara que leu demais, um bovarista, um colecionador de frases e atitudes espirituosas.
- esse seu comentário é demais espirituoso Glorinha, cada um escolhe o charme que merece.
- naquele dia na casa da mamãe, falando pro meu pai que você era um cara à moda antiga, você não se toca no ridículo dessas coisas não porra? isso não se fala...isso você fala beijando mão de puta, ou escrevendo um filme, ou quando você caminha pela praia e se perde nos pensamentos.
- fala dos seus pensamentos que se perdem Glorinha. Não Não, peraí. Eu sou um apanhador de pensamentos que são perdidos. Não deixo eles fugirem, eu sou um artista sem talento que só sobrou a tentativa de apostar no meu coração de ressaca, minha boca seca, minhas frases.
- eu me perco, no trabalho quinta-feira, não, ninguém me entende, aí eu vou pro fundo do escritório e fico pensando a vida daquelas pessoas. Que que eu vou pensar me diga? Por que que eu tenho que achar que ninguém é o que é? Não que elas não sejam o que são...mas por que ninguém é só aquilo que parece ser? Por que que eu tenho que achar que todo mundo tem um lado B, C, D, E, que isso tudo nunca é falado, e que isso se perde, isso se escorre junto com a sujeira do banho do fim dia pelos ralos...olha o carro, para. Me dá sua mão.
- essa mania de querer saber o que se passa na cabeça das pessoas, isso é paranóia você sabia? Você acha que alguém perde seu tempo pensando em você? É isso?
- já passei dessa fase, só acho que ninguém vive no presente, ninguém se concentra, tá todo mundo sozinho e carente.
- aquele dia na sua casa, com sua irmã chegando chateada com o marido dela, por que as pessoas não celebram as brigas? Por que os casais doentes de amor não oficializam o teatro do amor? É isso, descobri meu ponto forte, sou uma pessoa que oficializo o teatro do amor, você entende o que eu tô falando.
- Você brinca com isso porque não sente nada...nunca amou ninguém a não ser seu personagem.
- Ô Glorinha, quem ama então? Isso é mesmo importante será?
- O que?
- o amor...
- é importante pra quem não sabe amar...pro resto do mundo é só seguir em frente sem surpresas, sem decepções, sem calafrios...
- huehuehuehuehue
- ta rindo do que?
- dos calafrios...
- idiota, babaca.
(um sorrisinho exato pra demonstrar que estava brincando, o entendimento de Júlio Caldas, tão inseguro, qualquer derrapada tem que ser compensada com uma demonstração de carinho, carinho, carinho, que palavrinha. segue os próximos 100 metros repetindo a palavra na cabeça, carinho, carinho, carinho, chega ao restaurante, tem medo de quando o garçom perguntar o que querem beber ele responder carinho. Ri da situação que nunca vai acontecer, sempre promete levar esses planos pra frente, dar respostas absurdas pra perguntas corriqueiras. Sonhar é melhor que viver.)
Almoçaram, agora eu tomo conta de história, a ressaca não é desculpa para a auto-ironia canhestra. Vamos em frente. Quero acabar com isso logo, o prazo termina no final da tarde. Chegam em casa, a casa de Júlio Caldas, fazem café, fecham as cortinas, as buzinas, deixam o mundo do lado de fora, a luz que entra é suficiente para criar um oceano de ácaros, plânctons aéreos, puxam o lençol sem escovarem os dentes. Júlio Caldas quer transar, Glorinha sempre quer dormir. Lá pelas três, com a boca seca que parece ter sido soldada com feijão, Júlio Caldas começa roçar a bunda de Glorinha, Glorinha ainda dormindo, mais ou menos né, sempre arrebita a bundinha, sempre espera esse momento, caí um degrau do mundo dos sonhos, tá mais aqui do que lá.
Se beijam com a língua grossa, há dez anos atrás Júlio Caldas explicou que mau hálito é bafo de cocô. Cheiro de comida com café na boca não é mau-hálito, não é bafo, é cheiro de boca. Glorinha esperava muito nessa época, se regozijava quando previa as falas das pessoas, sempre depois disso vinha falar do consumismo, da Oral b, dos produtos que empurram pra nós. Por que algumas pessoas cismam em ter opinião própria hein? Será uma infância infeliz? É querer ser metido a besta? A vaidade? Por que a pessoa não pode acreditar no mundo, nisso daí que tá aí e fala por nós? A gente não lutou tanto pra ter isso? Pra todo mundo se entender, dar bem, não aumentar a voz, não discutir, não discordar, o companheirismo, os tapinhas nas costas?
Júlio Caldas puxa a calcinha de Glorinha pro lado. Ela deve fingir que dorme, ela não deve gemer agora, deve ir gradualmente do silêncio - sussuro - gemidinhos - gemido - articular palavras obcenas - gritos - gemido - gemidinhos - sussuro - silêncio. Ela é a maestra, a vara do maestro...como que chama aquilo...sim, BATUTA, se chama BATUTA, é o pau de Júlio Caldas. Foi mal.
Se a mulher pede mete ele tira, se a mulher pede pára ele põe. Penso onde não sou, sou onde não penso. Lacan tá na moda. A mulher deitada de bruços, a calcinha ajeitada pro lado, os cabelos da nuca que vão se empapando de suor, os braços da mulher que são segurados e puxados para trás, a violência é ela que rege.
Eu saio do apartamento, cansei, não quero mais falar desse casal, sinto como se tivesse saído do cinema num filme que começou na canícula das quatro da tarde e terminou na brisa suave das sete horas já de noite, num filme que ainda por cima dormi...Deixo eles repousando, abraçados, ele por cima dela ainda, o pau amolecendo dentro da vagina, a porra escorrendo quente pelos cantos, morro de amor, mordo diamante, o dia caí, a noite vem.
Sempre não saber o que fazer no dia seguinte.
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FIM
segunda-feira, 6 de julho de 2009
o que chama mais atenção é o medo. o que pra gente é metafórico pra ela é fato. medo de andar e cair, medo de luzes explodirem, medo de portas abertas, pessoas, animais, chuvas, tetos desabarem.
medo, preguiça, as horas intermináveis dentro do quarto olhando pro nada. não conseguir sonhar nada, não querer realizar nada.
acho que a única coisa que a mantém viva é a morte. o medo da morte.
momentos legais: quando ela martela o piano com clássicos do repertório de canções assobiáveis de nosso inconsciente coletivo, sob os protestos da minha avó. quando chama o cachorro de "feio" e "fedorento" como se esses fossem os maiores elogios que um cachorro pudesse ter.
lamento muito pelas circustâncias do desancadear do surto...quando que foi? 70? 71? muito sofrimento, muita falta de informação. sempre espero mais dela.
o louco não é original porque quer. originalidade, como dizem os japoneses, é uma vaidade inventada pelo ocidente. ele é original pela incapacidade de ter fantasias, introspecções, nóias, devaneios...e isso tudo mais que nos faz "pessoas normais".
a loucura é a solidão absoluta, é ser o único humano num oceano de presenças alienígenas. é olhar pro lado e ter certeza que ningúem sentiu, sente, ou vai sentir isso que você tá sentindo...é o peso gigantesco de sentir que a única consciência do mundo é a sua.
domingo, 5 de julho de 2009
esses dias um pai de um amigo meu foi atropelado por um ônibus. sofreu quase nada, só algumas escoriações.
segundo meu amigo, após o acidente, seu pai se tornou uma pessoa melhor, mais compreensivo, atencioso, ativo.
tô te contando isso porque li hoje de manhã, naquela sessão inicial da revista piauí, uma história de vida de um cara que perdeu o bom emprego, divorciou da mulher, e teve o filho de sete anos morto pelo câncer.
depois de um período deprimido ele virou budista, comprou um sítio no interior de são paulo e aprendeu do nada a fabricar aquelas MÁSCARAS de carnaval de veneza. agora ele tem um site e até exporta as máscaras pra fora.
olha que bonito isso, essa fabricação de máscaras carnavalescas, máscaras macabras sorridentes, a superação dos desastres, e a certeza de saber fazer só uma coisa na vida e fazer isso com muito talento e amor.
sábado, 4 de julho de 2009
"Vamos ter um filho? Vamos escolher o nome dele? Deixa eu te alegrar quando você estiver triste? Te ninar quando você estiver cansada? Vamos fuder o dia inteiro? Deixa eu te fazer uma massagem com creme? Vamos aprender a tocar piano juntos? Vamos fuder o dia inteiro? Deixa eu ajoelhar Glorinha e beijar tua mão? Vamos ser tão felizes que fiquemos calmos? Tão calmos que fiquemos fortes? Tão fortes que possamos ajudar todos os amigos que precisarem? Vamos fuder o dia inteiro? Vamos aceitar tudo o que o outro é? Defender tudo o que o outro é? Amar tudo o que o outro é? Vamos fuder o dia inteiro?" domingos oliveira
sexta-feira, 3 de julho de 2009
suco de nada com meia e chinelo produções apresenta:
B A L T A Z A R
em
o que sonham os cães
- a todos os cachorros que fogem de casa; que fiquem espertos.
Eu sou um cachorro, me chamo Baltazar e estou aqui para contar o que sonham os cães. Aproveito de início para agradecer a Internet por essa oportunidade que, de certa forma, corrige a triste preguiça humana em não insistir em perguntar para a raça canina o que diabos nós sonhamos.
Primeiro de tudo: esqueça o que vocês sabem sobre a vida, os sonhos, o sono, a vigília. Cães não são humanos, apesar de sonharmos e peidarmos. Deixa eu explicar melhor: todos os cães são sábios. Sábios e vira-latas. Todos nós sabemos o que fazer, por que, para que e até onde. Nossa vida é feita de simplicidades que de tão rasas nem lado têm.
Observamos o lufa-lufa da humanidade não porque queremos mas porque calhou. Entre brigas, latidos, arruaças, nós vivemos sem lembrar ou esperar, no presente puro, genuinamente descontínuos da corda que vocês humanos insistem em se manterem enlaçados.
Que nós sonhamos vocês pressentem. Observe um cachorro a dormir: as tremedeiras, as pálpebras inquietas, os gemidos esporádicos, o súbito abrir de olhos que parecem estampar a estúpida e clássica pergunta humana ao acordar: onde estou eu?
Desde já adianto: nossos sonhos em nada se assemelham com os seus. Enquanto estes são versões malucas de uma realidade estagnada, os nossos são a mais pitoresca expressão de nosso desdém pelo tempo. Sonhamos não porque dormimos, mas dormimos porque sonhamos. Do que é feito o Tempo, a Natureza, o Cosmos, ou Deus, essa impressão de ordem, o desejo de acreditar que o universo é ordeiro?
Ou você acha que é facil o sol se por todo fim de dia, toda onda bater na praia, o ar cismar de andar mais rápido e virar vento, a gravidade nunca se cansar de inutilmente puxar tudo pro chão?
No nosso cálido torpor, debaixo de uma cama ou numa poça de sol, um triste cão sonha que é vento e vento se faz. Para o sol se por, aproximadamente três milhões de cachorros sonham que são sóis se pondo. As estações do ano, a pequena defasagem de alguns segundos que é registrada pelos cientistas entre os anos, são sonhos abruptamente interrompidos por uma pulga que coça, um puto que me chuta, ou uma garota que acha que sou gente.
AQUECIMENTO GLOBAL? Pfff...
A cada ser Deus deu um projeto a cumprir. O nosso fardo - palavra usada só por interesse poético já que nem de longe isso é pesaroso - é viver fora do tempo, cheirando rabos e vagabundeando, só necessitando ocasionalmente de uns cochilos para fabricarmos o seu Tempo, seu dia e noite, aquilo que vocês, estarrecidos, nao controlam; apenas restando-lhes no final de cada dia um pouquinho de repouso, pois o cansaço sempre chega, os olhos se fecham, e, infelizes, nem sonhando conseguem adivinhar o segredo da mão morta que opera seus destinos.
Me deixe dormir mais por favor, não me acorde, não se preocupe com meu sorriso de dentes pra fora no 3/4 de hora de sono...não é tedioso ser um vulcão em erupção.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
suco de nada com meia e chinelo produções apresenta:
A IGREJA DO SANTO PERÍNEO.
OU
um rascunho de uma pequena fábula escrita na travessia juiz de fora – muriaé, das quatro horas da tarde até às sete horas da noite, cadeira 33, paraibuna turismo, dia 28 de junho de 2009, baseada numa remota obsessão minha.
“a anatomia é o destino” – Sigmund Freud
à sasha grey, minha musa zaratustra, que se liberte dessa vida e encontre a paz.
CARA-de-RATA era uma mulher solitária. Solidão é o nome que eu dou para a discrepância entre aquilo que a pessoa acha que ela é e aquilo que ela acha que os outros acham que ela seja. (Que ela seja ou que ela é? Não é à toa que o verbo ser é o mais difícil de conjungar) Depois disso a classificação se bifurca: tem os solitários conscientes e os solitários inconscientes. Mas no fundo as qualidades dos solitários são as mesmas: devaneios, auto-complacência, carência, teorias sobre o amor, e, no caso da CARA-de-RATA, a procura de um homem que a reconheça assim como ela se reconhece, como se ela precisasse de que outra pessoa soubesse o que realmente ela é para assim ela ser.
Deixa eu me apresentar: eu sou um caçador de solitárias. Esqueça o que você sabe sobre a vida, rotina, mundo. Eu não mexo com isso, embora paradoxalmente esse caldo daquilo que as pessoas chamam de cotidiano seja meu alimento. Há muito tempo atrás eu descobri que a vida era outra coisa. Eu sou uma pessoa medieval, fanática, religiosa, cujo maior sonho era criar uma religião. Não tô falando de uma igreja neo-pentecostal. Eu não queria herdar esse Deus caduco e fracassado. Queria fundar uma nova teologia, uma teologia Toda-Dentro, que desconsiderava qualquer tentativa de transcendência e que, através de um ritual de iniciação que marcasse uma obra no corpo, a pessoa poderia ingressar nessa nova ordem.
Foi então que através das minhas três grandes paixões - mulheres, anatomia, contemplação – que fundei a Profana Igreja do Santo Períneo. Vou ser breve: passava dias flanando pela cidade, eu moro numa cidade imensa, pegava ônibus, metrô, trem, andava a pé, circulava pelos bairros mais cabulosos até as regiões das pessoas endinheiradas, observava as mulheres, as comia com os olhos, procurava os sinais que pudessem me mostrar que ela era uma Solitária, que ela buscava aquilo que não existe, o impossível da paixão realizada, o encaixe perfeito, alguém que enxergasse nela aquilo que ninguém consegue enxergar.
Diagnosticada a solidão, eu a encaminhava para a Igreja, apresentava o sentido da vida, eu não sou um sedutor nem um galã, eu não servia de isca, a isca era a própria solidão, eu não tinha discurso, panfleto, filosofia, história de vida, moral, ensinamentos, evangelho, cartilhas. Isso tudo é para os fracos, falastrões, canalhas, aproveitadores. Eu tinha a Verdade.
A Verdade é que há muito tempo atrás a vagina e o ânus eram uma coisa só. Aquilo que a moderna anatomia chama de períneo, essa região entre o ânus e a vagina, foi uma conquista evolutiva que carregou junto com ela a proliferação da equivocada avalanche memética que desvincula o sexo da vida e o vincula como algo mais ou menos pecaminoso, mais ou menos pois a partir de então se deve obedecer alguns rituais para que ele seja possível.
Nossas mulheres fornidas ancestrais enxergavam que morte, vida, sexo, beleza, feiúra, ódio, amor, vícios, virtudes, inferno, céu, deus, diabo, nascimento, excreção, eram tudo uma coisa só. Ter uma vagianus assegurava uma postura mental que dialetizasse todas as aparentes disparidades da vida num único ponto, e esse ponto se chamava Tempo e o segredo era entrar na Música do Tempo, celebrando o acorde de cada segundo.
É o Tempo da Vida e da Morte, e eu prometia uma operação, eu caçava as solitárias, e eu sabia que se isso era mesmo Verdade, alguma memória coletiva e atávica ia aflorar na convicção que elas teriam nas minhas palavras. Dito e feito. Em pouco tempo recrutei centenas de mulheres, sedentas pelo meu corte cirúrgico, meu presente, a vagiânus, a vida é um sonho, os budistas pressentem, elas tinham certeza.
Elas se disparavam na cura. A cura da vida não é a morte, nem a apatia, nem o não desejar, nem a realização. A cura da vida é possuir um corpo, é se aliar ao corpo, é reconquistar o corpo de mamífero, é se desvincular de qualquer miragem de humanidade, é, não se tornar um ser humano animalesco, mas veja bem, se tornar um animal humano.
Vagianus é o avesso do arquétipo da Vagina Dentada, puro acolhimento, natureza relinchando, bordo do mundo, última parada, o desespero do fim da vida, o milagre da desimportância, o SIM eterno, cascata de sonhos, os melhores momentos da sua vida, o vídeo que passa na sua cabeça quando você tá morrendo, todas as pessoas que você fez chorar, todas as pessoas que te fizeram chorar, ferro na boneca, o mais legal e o mais escroto, o início e o fim, o Lado de Lá no Lado de Dentro, a primeira vez que você viu a cor azul, a primeira vez que você andou, seu pai e sua mãe, o pai e a mãe de todo mundo, tudo aquilo que todo mundo sente e que nem sabe o que é, os sonhos dos cachorros.

Eu sei que os gregos já falaram de um ser hermafrodita com pênis e vagina que se dividiu e formou homens e mulheres. Isso é pós vagianus. Eu sou essencialmente anti-freudiano. A vagina não é um pinto decepado, o pinto que é uma vagina que cresce.
Até que encontrei CARA-de-RATA, cara de rata acuada debaixo das marquises, olhos injetados para dentro, funcionária pública, mente regada à novela das oito, revistas da Sabrina, romântica incurável, menarca precoce aos 11 anos, depilação semanal, espera, sacrifícios, não, não tem gatos, nem fuma, nem leu Nelson Rodrigues. Não tenho culpa se as pessoas são palavras.
Nessa época minha Igreja do Santo Períneo já contava com milhares de adeptos em quase todas as partes do mundo. Sabe o Clube da Luta? Era aquilo. Eu era uma lenda, mas só eu era o homem, eu não era mártir, nem deus, eu era o libertador, o Bem-Aventurado, o cirurgião, o criador do esquecido.
Conhecer a CARA-de-RATA foi o início do fim. Hoje em dia circulam boatos de vaginas escandidas, chamam de anomalias, otários. A transa com um vagianus é ensopada, plasmática, celestial. A vagianus é viva, maleável, apertada, delicadamente compressora. É uma luva, uma boca, um buraco numa estrela, um corredor refrigerado no meio do sol.
Não sei "como" mas sei "quando" comecei a me apaixonar pela CARA-de-RATA: quando ouvi sua voz tão fora dela, tão distante do guinchar do povo roedor. Não vi "como" porque não sei "como" porra. O que eu posso fazer? Por isso eu tô escrevendo isso, porque eu não sei de nada.
Escrever é ocupar um espaço vazio, preencher a brancura do papel. Mas eu ainda não tô escrevendo, preste atenção. É esse o legado do meu amor: uma história sobre bucetas e cus aglomerados num só orifício, uma CARA-de-RATA, a opção por não operá-la, a descoberta da minha loucura, meu desaparecimento, o emprego que conquistei, meu casamento com ela, nossos filhos, sua vagina e ânus separados, meu amor pela seu períneo intacto, minha vida simples, a descoberta que todos os períneos estavam regenerando, uma prova que o tempo todo eu estava errado. Ainda bem, antes tarde do que nunca.
O Tempo não é nosso amigo. A Música do Tempo não é tocada pela gente, nem pela Natureza, quanto menos um deus. Ela não é tocada por ninguém, o tempo é um som que deixaram ligado e saíram de casa. sujeito indefinido. A vida é um profile de uma pessoa morta, esquecidamente eternalizada num confinamento que resiste a nada.
Mas por enquanto eu só tô te contando, agora eu tenho que escrever toda minha história e de como conheci a CARA-de-RATA.
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FIM
suco de nada com meia e chinelo produções apresenta:
NÃO HÁ BATIDA SEM BARULHO.
ou
uma historinha escrita em alguma noite insone de agosto de 2006
Nasci em 1972, numa quinta-feira oleosa, daquelas que melam o bolso das crianças com chocolate derretido. Segundo minha mãe o ar estava “gelatinoso”, o que pouco entendi, a não ser futuramente quando descobri sua grande paixão por gelatinas. Minha infância e adolescência pouca importam, a não ser meus 17 anos, idade em que me nomeei Caçador de Barulhos.
Desde cedo (talvez pela ausência de vitrolas e instrumentos musicais na minha casa), gastava todo meu tempo ouvindo o ar. Infelizmente naqueles tempos sombrios em que a infame expressão “fazer nada” ganhava mais alcance e relevo, logo logo fui tachado ora de biruta, ora de à toa. Em um dia cataloguei cerca de 1023 barulhos. O leitor mais esperto, chegado em gorgomilhos metafísicos, irá balbuciar: “mas, cada barulho é único, visto que a posição que o ouvinte ocupa irá determinar a intensidade do barulho, e barulhos com intensidades diferentes são barulhos diferentes, logo os barulhos são infinitos.” Para superar essa terrível alegação esbocei um tratado metodológico do que exatamente era um barulho. Pouco adiantou. Me restou definir então qual a extensão do conceito de cada barulho.
Para mim era óbvio que existia barulho de porta de carro batendo, por exemplo. Mas era humanamente impossível catalogar cada tipo de barulho de porta de carro batendo. Em cinco segundos consigo lembrar de quatro: barulho de porta de carro batendo com mãe irritada saindo, barulho de porta de carro batendo com vergonha, barulho de porta de carro batendo seguido de aperto de polegar, barulho de porta de carro batendo com pressa. Enfim... o meu método se revelou necessário para não cair nessa paranóia conceitual, para não me sentir uma criança contando os grãos de areia da praia. Em um ano o “Manual de Caçador de Barulhos” estava pronto.
Meu vizinho Tonho, uma mistura de Sancho Pança com o rato Pink, recomendou o seguinte subtítulo: “Do barulho do ronco ao barulho de dicionário caindo no chão, passando pelo barulho do encontro das nádegas femininas com a pélvis masculina.”
Após a festa de lançamento do "Manuel do Caçador de Barulhos" promovida no sótão de minha prima lalissa, cuja peculiaridade foi passar três horas sem produzir o menor dos barulhinhos, cansamos. Cansamos de passar os dias estirados no chão comendo paçoca, desapontados com a previsibilidade dos barulhos e com as estripulias sonoras que o ingênuo Tonho se meteu em exercitar toda manhã.
Numa terça-feira com cara de domingo saímos em busca do barulho-em-si.
Talvez o leitor pouco atento às ondas sonoras que nos cercam não perceba a obviedade que se tornou o primeiro axioma de nosso tratado: nenhum barulho surge do nada. Entretanto, de acordo com manuscritos encontrados no sótão de lalissa, em tempos imemoriáveis, num desses dias melosos em que o ar se encolhe feito um piolho de cobra acuado, um barulho aconteceu. Do nada. E pra sempre. Apesar de nossas infrutíferas tentativas de decifrar onde e quando o estranho fenômeno aconteceu, não nos intimidamos: entrecruzamos nossos olhares de assombro e balbuciamos quase que juntos o axioma que se tornaria o mote triunfante de nossa expedição: “se o barulho-em-si existe pra sempre, ele ainda existe”. Mas se achar um barulho não é coisa simples, caro leitor, imagine o barulho-em-si..
Após longas digressões com Tonho sobre como seria o barulho do nada, chegamos à conclusão que o barulho não poderia se assemelhar a nenhum barulho produzido pelo homem, por animais, e nem por máquinas. Lalissa pensou no vácuo, em possíveis arrotos alienígenas, no último barulho da vida, no diálogo entre prótons e nêutrons, e chorou. Veja só como é curiosa nossa cabeça! Por mais necessário que fosse descobrir como soaria o barulho-em-si, não conseguimos. Porém, enchemos três cadernos sem pauta com as faces e odores de nosso Santo Graal. Tonho imaginou que sua audição seria seguida por uma fumaça verde e por um cheiro de leite materno. Lalissa cismou que a audição era precedida por uma peculiar sensação de algodão-doce saindo pelos ouvidos. Eu passei cinco dias de olhos fechados trancados num quarto de hotel em busca de um comichãozinho....de um rabinho de barulho...
No sexto dia anunciei as boas novas.
:::::::::(pausa, terceira parte)::::::::::
Na terceira e última parte de nossa singela expedição desde já aviso ao leitor o quão decepcionante é nosso desfecho. Não enfrentamos dragões, não nos perdemos em labirintos, não passamos fome, sede, calor, frio, sono, dor de barriga nem de cabeça. Entretanto, como toda saga que se preze, o trágico não nos escapou....
Como eu ia dizendo, após cinco dias trancados num quarto escuro feito um cadáver enterrado, saí às pressas para anunciar para Tonho e lalissa minha mais nova descoberta. Antes, colei um misterioso naco de cabelo perdido no canto do quarto no meu rosto e desfiz minhas roupas em frangalhos, achando assim que meus comparsas pudessem encarar minha descoberta como uma profecia enviada do além.
A profecia era clara e óbvia: se de fato existe um barulho-em-si, ele é o silêncio absoluto. Passada a euforia e o lufa-lufa provocados pela revelação, tomamos nossas providências: alugamos um cubículo nos subúrbios de Hong-Kong, lacramos as janelas e as portas, tiramos as roupas e deitamos. E ficamos deitados de olhos fechados, felizes por nenhum cachorro latir, nenhum estômago roncar e nenhum espirro espirrar. Na escuridão nos olhávamos com curiosidade, como uma dona-de-casa que sabe que os ladrões já entraram em casa, e olha pro marido esperando a hora em que os bandidos irão entrar no quarto.
O silêncio foi interrompido com um barulho seco e um grito de lalissa. Acendi as luzes e vi minha prima caída no chão, num choro mudo, com um lápis enfiado em cada orelha e um filete de sangue formando um brinco cachoeira escarlate. Ao seu lado estava uma caixa faber-castel 48 cores. Escolhi o amarelo claro e o amarelo escuro. Tonho escolheu um verde escuro e o misterioso lápis branco, talvez por ainda ter a ingênua expectativa que o nada fosse branco.
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FIM
quarta-feira, 24 de junho de 2009
entrevista completa aqui: http://revistatrip.uol.com.br/revista/178/paginas-negras/so-as-cachorras.html
esses dias fui ao dentista. quem são meus dentes? mais ou vez o de sempre: dentes bem feitos porém mal tratados. a escovação correta é aquela bem rente à gengiva. o uso do fio-dental é diário: ele deve penetrar um milimetro dentro da gengiva e retirar as bactérias que se acumulam por ali.
se sangrar já sabe, tem bactérias fazendo a festa. tô com uma cárie e eu a vi. quem são meus dentes? saudade da anestesia, desde criança que não tinha cárie.
de vez em quando eu tenho escovado da maneira certa, olhado cada dente, tratando-os como se fossem indivíduos, será que eles podem ter nome?
o senso comum apregoa que sonhar com dente caindo é morte de algum conhecido.
faz todo sentido. eu mesmo sonho muito com isso. ambas as situações são irreversíveis. não nasce mais dente, não se levanta do túmulo.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
esses dias uma vizinha me parou nas escadas, abriu seu olho direito e me perguntou se havia alguma coisa dentro.
eu disse que não. ela falou que tá com uma irritação, como se houvesse areia dentro do olho. falei pra ir no médico. ela concordou e desci as escadas.
dias depois ela me para e diz que foi ao médico. a irritação era provocada por uma segunda fileira de cílios que estão crescendo ao contrário, ou seja, pra dentro do olho.
de quinze em quinze dias ela tem ido ao médico tirar com uma pinça os cílios reversos.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
alguém ainda acredita nisso? o próximo passo vai ser o desenvolvimento de uma espécie de autismo brando (um que fala no livro "indecisão" citado abaixo), que nos permita viver sem reconhecer a realidade mental do outro.
terça-feira, 16 de junho de 2009
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ontem eu sonhei que o mundo estava acabando. ou era eu que estava ficando louco. no fundo é a mesma coisa: a loucura deve ser uma forma de fim de mundo.
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"todos somos geniais até os sete ou oito anos. quer dizer que todas as crianças são geniais. mas depois que a criança tenta parecer com os outros, procura a mediocridade e a consegue em todos os casos. acho que é verdade isso." - jorge luis borges numa entrevista...
apesar do apelo por ser diferente seja um mote publicitário, tem algum sentido. o capitalismo é apenas a superfície de algo muito mais remoto e infantil.
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após o fim do mundo sonhei que estava num planalto muito verde e com muito sol.
(insisto em pensar que os dois sonhos tenham uma continuidade, só pelo prazer de achar que aquilo poderia ser um tipo de céu.)
existia um vale embaixo com algumas cabanas e eu tive a certeza que aquelas cabanas eram habitadas por zumbis.
senti muito medo, porque pior que ser atacado por zumbis durante a noite, é ser atacado por zumbis num dia ensolarado em cima da grama.
do nada surge um ônibus com um time de futebol e uma mocinha loira se dirige até a mim e diz que fui escolhido por ela. pergunto se ela é a única mulher (de onde? do mundo? da eternidade? do ônibus?) e ela responde que sim. deita do meu lado, se aproxima e a beijo.
o beijo foi prolongado...mas num certo momento eu senti que sua boca não mexia mais. eu estava perdendo ela. ela estava escapando de mim. eu estava na fronteira do sonho com a vigília. acordei com minha língua se movimentando fora da minha boca.
sou capaz de lembrar de cada traço do seu rosto, do tom da sua voz, do seu calor, e do tipo de encaixe que o beijo formou. nunca a vi na vida.
domingo, 14 de junho de 2009
semana passada eu li um livro e assisti a um documentário que se complementam.
o livro se chama indecisão e foi escrito pelo norte-americano benjamin kunkel em 2004. o documentário se chama ABOUT A SON e é uma narração em cima de imagens muito legais de uma entrevista gigantesca que kurt cobain deu em 1993, falando principalmente de sua infância e...personalidade.
o livro conta a história de um rapaz de 28 anos incapaz de tomar qualquer decisão na vida. aquilo que se chama de ABULIA. não saber o que quer é achar que alguém quer alguma coisa pela gente. não é coincidência que ele estudou aquilo que estuda por que as pessoas querem: filosofia.
ele se queixa de ter a impressão que nada acontece com ele. se abriu tanto para a vida que não encosta em nada. sua irmã fala que parece que ele sempre fala entre aspas. o livro é hilário. em várias situações eu imaginei que se fizesse um filme o ator teria que ser o adam sandler.
kurt cobain era um babaca. nunca vi uma pessoa se dar tanta importância. conta um caso que quando era pequeno seu pai o repreendeu por tá fazendo zona numa lanchonete. desde então ele fala que sofre por tentar ser perfeito em tudo.
que bobeira não é não?
"foi descolado e aparentemente obrigatório, em alguns círculos, ser desleixado e pessimista", diz o personagem numa passagem...
kurt cobain diz que ele é filho da américa mimada. mimada pela relativização dos valores, pela possibilidade de argumentar seu fracasso falando que é difícil ser saudável num mundo doente.
o desfecho do livro achei um pouco bobo, mas de certa forma foi legal ele se engajar politicamente no combate à pobreza do terceiro mundo. achei bobo porque eu não acreditei no personagem. é como se a história entrasse em curto-circuito. ou o personagem no caso, porque talvez o autor quis passar isso mesmo...
eu acredito nessa coisa da jornada do herói, que nossa vida deve ser movida por um ideal maior que nosso umbigo. toda busca é isso não é não? a paixão é uma esperança.
terça-feira, 9 de junho de 2009
"o sono profundo é um grande aliado para a solução dos problemas mais difíceis. seria durante a chamada fase REM, que só acontece quando dormimos profundamente, que o cérebro busca resolver com criatividade situações novas e problemáticas. durante essa fase, são feitas associações livres e testes de possibilidade." - do caderno de ciência do globo de hoje...
sábado, 6 de junho de 2009
saiu uma edição para crianças, ilustrada pelo artista espanhol emilio urberuaga, do relato "Discurso do urso", um breve relato escrito por Cortázar e publicado no livro história de cronópios e famas.
josé castello, do caderno prosa e verso do O Globo, escreveu hoje:
"crianças estão sempre disponíveis para a dissonância e o arrebatamento. atitude que resume o que ele chamava de fantástico: não o absurdo, ou o monstruoso, mas a capacidade de manter-se, sempre, um pouco deslocado, aberto aos desvios, às idéias inconvenientes e aos golpes da fantasia."
"em nós, adultos, a ansiedade surge sempre que percebemos que a vida de move por um sistema de leis anterior àqueles que aceitamos. quando se evidencia que outras lógicas, menos civilizadas e menos lógicas, movem o mundo. assim são as crianças: se não as massacramos com os bons modos e a boa educação, permanecem atentas aos deslocamentos, inversões e sustos que, no fim, definem a arte."
cortázar é mestre...a forma que ele vai colocando as coisas é exata, um tipo de arrebatamento, causando desde o nó nos miolo mais bisonho até uma ternura infinita por tudo e todos.
não consegui achar o DISCURSO DO URSO pra linkar aqui, mas nem preciso dizer que o histórias de cronópios e famas é uma obra-prima que merece ser comprada.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
"o politicamente incorreto é o novo politicamente correto."
e por aí vai, incessantemente, as malditas referências, contaminando a cognição e os sentidos, injetando o mínimo de sentido, estabelecendo o mínimo de sinalização, um fiapo de Poder para nossa espécie se agarrar e acreditar que a ordem existe.
saber amar é o ato mais anárquico que alguém pode cometer...
quinta-feira, 4 de junho de 2009
o maior motivo prum governo ainda cometer o absurdo de proibir o consumo de certas substâncias é simples:
ninguém sabe o que aconteceria.
se na vida particular o medo e a repulsa ao novo é a regra, imagina num âmbito coletivo?
quarta-feira, 3 de junho de 2009
você é só uma presença acompanhando o desenrolar dos acontecimentos, uma câmera registrando aquilo que ocorre.
mas pode ocorrer de você pular pra dentro da ação...ou, estando presente como pessoa, passar para fora da ação também. qual o nome disso?
.....
um tempo atrás li um artigo falando que não existe nenhuma determinação psicológica ou inconsciente para os sonhos. que todo seu conteúdo advém das manchas escuras que bóiam na nossa retina quando fechamos os olhos.
pois bem:
uma noite sonhei exatamente com essas manchas, ou seja, consegui capturar o exato momento antes das imagens serem codificadas em imagens igual vemos no dia a dia.
mas essa façanha procede se você acreditar na realidade.
pra quem acha que o mundo sempre é uma ilusão tanto faz sonhar com as manchas ou com imagens: ambas já são decodificações de uma coisa inacessível...
terça-feira, 2 de junho de 2009
todo mundo tá ficando mei retardado ou é uma impressão minha?
segunda-feira, 1 de junho de 2009
domingo, 31 de maio de 2009
sábado, 30 de maio de 2009
o livro é bem melhor. é uma patetice ficar falando isso e até me desagrada quando alguém fala isso, mas no caso é verdade...o livro é muito bom.
aposto que quem fala que é ruim fala por má-fé, só porque quem escreveu foi o chico buarque.
o filme tem umas partes legais mas a quantidade de clichês é tanta que em algumas partes fica insuportável.
por que o clichê, uma coisa saturada, um padrão levado aos extremos, irrita tanto?
o clichê é o oposto do senso de humor. enquanto o humor é ruptura a todo instante o clichê é insistância.
a verdade cansa; a descontinuidade intriga e te dá mais um motivo pra achar que a vida é boa.
a pessoa ansiosa é aquela que vive na continuidade da vida...em nenhum momento ela se permite se desvencilhar do passado e do futuro para só viver o presente do acontecimento.
(pois igual aquelas propagandas cretinas que falam que se droga fosse bom ela não teria esse nome, também vou falar que se o presente fosse ruim ele não teria esse nome).
quinta-feira, 28 de maio de 2009
terça-feira, 26 de maio de 2009
o alcoolátra antes de tudo é um devedor. ele nunca está a altura do mundo. o mundo sempre é muito maior que ele.
essa figura comum do poeta alcóolatra:
o excesso de significados que o mundo fornece é tanto que ele só sente confortável num lugar tão incrível estando bêbado.
o alcóol põe o mundo exterior dentro de um quadro. enquanto bêbado o alcoolatra não se sente mais um animal acanhado. ele se estabelece no mundo (religião) e só assim consegue ser.
pra cura de todos males só a invenção.
o cristianismo afirma a redenção desenhando uma coisa lá fora muito maior que redime toda a humanidade.
a psicanálise sabe que não existe nada lá fora, só um monte de coisa aqui dentro.
a ciência e a psicanálise se distiguem da religião por tentar descobrir as motivações humanas só com formações do lado de dentro, o único lado.
o ateu na verdade não é ateu. o verdadeiro ateu é o perverso. só ele acredita na realidade. a realidade da ausência de Uma-Coisa-Maior-que-Não-a-Gente que regula nossas motivações. pensando assim ele pode agir pensando em apenas se dar bem: nada o atravessa.
o ateu acredita numa motivação para além do ego, como a seleção natural. e você acreditar numa coisa que você só conhece os efeitos é algo bem religioso.
a psicanálise é religiosa porque sabe que essa é a nossa condição. um tipo de defeito de fábrica.
porque religião, ciência e psicanálise antes de tudo procuram definir nossas motivações. por que agir? por que viver? a religião, essa coisa antiga, veio de uma época em que a linguagem era algo tão poderoso que neguim acreditava que um rei era um deus. e isso bastava pra haver uma ordem.
agora que a linguagem foi corroída por dentro há uma carência moderna em estabelecer um contato com alguma coisa que faça brilhar os olhos.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
não sei pra quem ia meu coração; mas lembro que meu peito estava translúcido: por trás de uma pele transparente e borrada, parecida com aqueles vidros que só se visualiza uum borrão, via meu coração bater.
parece que o médico esqueceu de dar anestesia. quando encostou o bisturi no meu peito eu acordei.
e isso me faz lembrar de como a vida é rara e de como é agonizante sentir nossas veias pulsarem. que tipo de confiança é essa que temos pelo coração? não é mais fácil ele não bater? nosso corpo trabalha tranquilo ou nervoso? e essa comunicação tão antiga quando a gente fecha nossos esfíncteres e dizemos que a hora de cagar não é agora? a gente comunica não comunica? essa comunicação bisonha, sem palavras...igual na dor de cabeça quando você entra na sintonia da dor e sente que quem lateja não é sua cabeça mas você mesmo.
momentos raros esses. o corpo não fala, o corpo responde. mas quem responde por ele? a resposta do corpo é nosso silêncio e a automaticidade daquilo que alguns chamam de deus.
deus é a involuntariedade de um músculo estriado.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
segunda-feira, 11 de maio de 2009
sábado, 2 de maio de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
isso é a coisa mais importante da vida.
chega a ser constrangedor o fato de que toda (ou uma parte, depende da intensidade da neurose) auto-confiança e determinação que o sujeito tem na vida depende do fato de seus pais acreditarem realmente nele...
a família que nascemos aparentemente não faz parte de nossas escolhas. mas faz. ela vai mudando de acorda com nossa posição subjetiva. na verdade até essa nós escolhemos.
a família que nós escolhemos é o que há. eu procuro escolher muito bem a minha, e você?
quarta-feira, 8 de abril de 2009
"A pior exclusão
O véio tarado é um tipo excluído. Talvez o pior de todos os excluídos, porque não existe ideologia, religião, time de futebol ou preferência gastronômica que poupe o coitado. À direita e à esquerda, todo mundo faz cara de nojo para ele. Basta o véio tarado dar aquela olhada gulosa na direção da menininha, que qualquer um em volta, e não apenas a menininha empinada, faz questão de fazê-lo ouvir um "tsc-tsc" bem alto, às vezes até com xingamento: "Véi tarado".
Mas o véio tarado não faz mal a ninguém. Às vezes, é verdade, dá uma roçadinha, que é para melhorar um bocadinho as lembranças daqueles tempos. E nessa encostadinha - no ônibus, no balcão da padaria ou na fila do banco -, nosso heroi acaba incomodando um pouco, não pelo contato em si (igualzinho ao de um tarado em qualquer idade), mas pela velhice do véio. Ele nem faz cosquinha, mas a suposta vítima é capaz até de dar uma bolsada nele, só por causa da baba enrugada.
Pois este blog quer defender o direito do véio tarado de ser quem ele é; o direito de olhar sem vergonha para babás, enfermeiras e estudantes de uniforme; o direito de falar safadezas para mulheres de saia e sem saia também; o direito, enfim, de babar.
Excluído dos excluídos, o véio tarado merece nosso respeito. Admire-se não apenas sua safadeza-arte, sua baba-moleque, mas sobretudo sua coragem para exercer, sem vergonha, aquilo que todos gostaríamos de poder fazer, tivéssemos liberdade para isso. No futuro aberto por esses desbravadores, todos nós - pobres ou ricos, bebedores de cachaça ou de campari, admiradores de bocha ou de vôlei de praia -, todos nós poderemos ser também velhos tarados em busca de colegiais inocentes (se as houver, é sempre bom lembrar)."
bruno rabin
quarta-feira, 1 de abril de 2009
o porquê de só existirem dez números. melhor dizendo, dez desenhos, dez sinais gráficos para representar todos os números.
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9
juro que já passei um tempo imaginando como poderia ser o onze, porque ele tem que ficar confinado em dois um seguidos.
é porque nós temos apenas dez dedos nas mãos.
(todos a física quântica é feita por pessoas que superaram esse sistema decimal e conseguem criar um desenho para cada número específico. tipo a cara do número um milhão trezentos mil e quarenta. o resultado de suas contas é a prole da transa de monstros numéricos.)
em suas horas de ócio eles se ocupam escrevendo livros com graus de sutileza inatingíveis para qualquer linguagem escrita: romances numéricos.
sábado, 28 de março de 2009
choveram de cartas nas redações dos jornais que noticiaram a declaração. pessoas ficaram furiosas com o suposto tom racista frase.
além da má-vontade em querer entender as palavras do presidente, as pessoas enfurecidas se esqueceram de uma coisa:
lula estava certo. por coincidência, os homens responsáveis pela crise são brancos e possuem olhos claros.
esse tema do racismo me dá até preguiça.
o mais importante sempre é esquecido. é o óbvio que insistem em ignorar. para além de qualquer análise sociológica, cultural, genética, existe a mais importante: a fenomenologia.
incrivelmente os seres humanos possuem cores diferentes. ponto final. a partir daí falta bom humor e sobra auto piedade.
toda minha opinião sobre o assunto pode ser resumida na frase do filósofo adorno. ele vivia sendo chamado de racista por achar que o jazz acabou com a música.
"Não tenho nenhum preconceito contra os negros, a não ser que nada, exceto a cor, os distingue dos brancos".
domingo, 22 de março de 2009
- por que você anda tanto?
- porque quanto mais eu ando mais as coisas acontecem, respondi.
teve um momento em que saí do hotel e a neve estava descongelando. a luminosidade era parecida com a da madrugada, mas havia um zumbido muito estranho que colocava aquela hora distante de qualquer momento conhecido do dia. pessoas andavam sem direção pela montanha. o castelo ainda estava lá, distante e cheio de promessas.
quando retorno ao hotel percebo que toda a decoração existia para simular um interior de navio. encontro uma escotilha e lá fora havia uma praia estreita, violentíssima, barulhenta e lotada de pedras. a água era muito verde. a praia parecia um praia artificial de algum parque temático que foi tomada por uma força macabra. nas pedras haviam crianças, homens, mulheres. as ondas batiam, as pessoas caiam mas se levantavam e tornavam a serem tragadas pelas ondas. percebi que aquilo iria se repetir infinitamente, que aquelas pessoas iriam sofrer eternamente com as ondas sem nunca morrerem. pensar aquela cena se repetindo me encheu de agonia. então eu pensei:
- APOSTO QUE EU VOU SONHAR COM ISSO TUDO UM DIA.
sexta-feira, 20 de março de 2009
ontem na aula o celular da professora tocou. se não bastasse ela atender, ainda ficou alguns segundos de papo no telefone. olhei em volta a procura de alguma expressão que refletisse e aliviasse minha indignação, mas só encontrei uma paciência bovina, aquela paciência que não é tolerância, mas apenas a certeza da irrelevância de tudo que acontece.
eu não tenho celular. todos os lugares em que morei um telefone fixo me antecedia. o telefone fixo basta. da mesma forma que acho extremamente constrangedor ouvir os outros falarem no celular, também sinto um desconforto de falar ao telefone enquanto tô na rua. me sinto uma pessoa idiota, não sei porque. vai ver é porque eu levo a vida muito a sério, ou porque me importo com o que os outros vão achar de mim.
escuto muita gente se perguntar como que a humanidade conseguiu viver tanto tempo sem esse aparelho.
eu carrego uma certeza comigo, uma certeza esotérica: o celular não trouxe nenhum avanço para a humanidade. o celular fica dando giros em volta de si, sem sair do lugar. ele criou mais problemas do que soluções e todas as soluções que encontrou foram pra problemas que ele mesmo criou. vendido como solução ele se tornou um problema. o celular é a materialização de todo sentimentalismo da terra.
concluí isso do documentário que assisti hoje sobre o foucault.
isso é só mais um ponto de vista ou é a terrível verdade sobre as coisas?
nem uma coisa nem outra. não entendi aonde o fucô quis chegar. o poder rege todas as relações humanas e sociais....e daí? o poder não é o fim mas o meio. meio de que? do bem comum. mas que bem comum é esse que excluí os que não se encaixam num modelo e propaga uma ditadura da perfeição? ou seja: o poder na verdade sempre é o fim.
a inexatidão do que seria o bem comum é uma conseqüência da vitória do capitalismo, ou do desejo do inconsciente se manifestar se você preferir.
fucô venceu: nunca se falou tanto em acatar as diferenças. se por um lado isso é legal, por outro é chato. é a volta do politicamente correto. ter alguma convicção se tornou deselegante.
será que a verdadeira intenção da minha mãe quando me obrigava comer taioba quando criança não era que eu me tornasse uma criança bem nutrida, mas que ela se sentisse satisfeita consigo mesma por tá cumprindo com eficiência o papel da mãe ideal?
será que todo altruísmo, todo suposto sincero sentimento de compaixão, amor, companheirismo, amizade, são apenas máscaras discursivas que camuflam o egoísmo radical de cada ser humano?
existe um mau hábito que sempre desenha com feiúra a palavra egoísmo. as intenções das pessoas sempre são egoístas não por que elas são más, mas porque cada um é um.
o egoísta do mal não é aquele que usa os outros para o próprio bem, mas sim aquele que é servo de si mesmo, aquele que usa a si mesmo para o próprio bem.
querer o meu próprio bem sempre é querer o bem do outro. querer o bem do outro sempre é querer o próprio bem.
sexta-feira, 13 de março de 2009
RODADAS DE UÍSQUE
"Deixamos as rodadas de uísques ao pessoal da elite que gosta de debater Proust, falar de Hengel, analisar as altas e baixas do dólar, ler Businnes Week, DIÁRIO só serve para não circular nas bancar né? Foi a maior procura pela edição desde a fundação do jornal na cidade. Ou o povo está carente de notícias locais ou o tema valeu o interesse maciço? Ninguém questionou a reportagem especial de fim de semana, quando o DIÁRIO escreve, o assunto é baseado em convicção, pesquisa de dados, documentos e fontes fiéis, portanto dá até pra criticar, mas questionar e acusar de informações mentirosas, não dá não!!! Ah, e parece que nossas fontes de informações triplicaram de domingo pra cá...Agora agüente nós!!! É só assunto fresquinho e apimentado!!!"
quinta-feira, 12 de março de 2009
"tem coisas que você só vai entender quando for pai (mãe)..."
o mais impactante dessa declaração nem é seu conteúdo em si, que aparentemente é quase uma profecia mas é tão óbvio quanto eu falar que tem coisas que só vou entender quando for motorista de táxi.
o mais impactante dessa declaração é que ela só é pronunciada em momentos graves, sem nenhuma descontração. toda sua carga dramática e seu falso mistério são pra te convencer da autoridade que só o fracasso proporciona.
gostei muito do livro. renovei o entendimento do sentido da expressão não levar a vida tão a sério, ou não se levar tão a sério. é engraçado como as respostas da vida estão numa propaganda de banco ou num papel que forra a mesa do mc donalds. não se levar tão a sério abarca não só o sofrimento, como também a alegria. é isso que permite se entregar aos acontecimentos da vida, sejam alegres ou tristes. ou fazer valer a pena o bilhete para a montanha russa que é a vida.
o livro é engraçado porque o autor cutuca as afetações dos próprios psicanalistas. hilário ele falando como eram os comportamentos dos psicanalistas franceses no final dos anos 70 quando eles tinham que demonstrar socialmente que já tinham chegado no fim da análise...
muito boa também a parte em que ele coloca um ponto final na discussão entre as neurociências e a psicanálise. não tem o que as duas discutirem entre si. saber que meu corpo é feito de 70% de água não muda minha experiência do mundo. a psicanálise mexe com essa coisa mais antiga, isso aqui que tá acontecendo o tempo todo, a gente aqui no mundo vivendo sabe? descobrir o funcionamento do cérebro é muito interessante e talvez ainda possa nos ajudar em alguma coisa, mas nada que se descubra vai mudar a situação de estar vivo o tempo todo.
igual a física quântica. ela não tem nada a ver com nossa vida, a não ser como metáfora.
gosto da psicanálise pela atenção que ela concede a narrativa. a vida enquanto narrativa, a imersão de um ego numa história que o antecede e os desdobramentos da escrita dessa história. o inconsciente é essa história que é minha mas não fui eu que escrevi.
terça-feira, 3 de março de 2009
eu gosto de interpretar essa frase no seguinte sentido:
todos nós somos sozinhos. sabe isso que tá acontecendo o tempo todo? eu aqui, você aí, a sensação de você carregar você mesmo por aí o tempo todo, só você e mais ninguém.
no livro do cortázar, o jogo da amarelinha, ele cria uma metáfora interessante para isso. como se nós fôssemos árvores frondosas, com raízes e troncos que nunca vão se tocar, mas com galhos que volta e meia se esbarram.
mas pra quem gosta de uma interpretação um tanto literal e não consegue admitir que nunca há uma harmonia plena entre dois seres humanos transando, aqui vai uma descrição valiosa:
“(...) no pico do ato amoroso, no pico mesmo, quando ela está começando a gozar, quando ela está realmente reagindo a você agora e você vê na cara dela que ela está começando a gozar, os olhos abrindo daquele jeito que é ao mesmo tempo de surpresa e reconhecimento, que nenhuma mulher viva consegue falsificar ou imitar se você está olhando mesmo intensamente nos olhos dela e vê a mulher de fato, você sabe do que eu estou falando, aquele momento de ápice de máxima conexão sexual humana quando você se sente mais próximo dela, com ela, tão mais próximo, mais real e mais extático do que o seu próprio gozo, que sempre parece mais com perder apoio da pessoa que segurou você para não cair, um simples espirro neural que não fica nem na mesma área de jogo do gozo dela e – eu sei o que você vai concluir disso mas vou dizer mesmo assim – mas como até esse momento de máxima conexão, de triunfo conjunto e alegria de fazer a mulher começar a gozar tem esse vazio de penetrante tristeza dentro dele, de perda delas nos olhos delas quando os olhos delas começam a abrir até o máximo e quando elas começam a gozar começam a fechar, fechar, os olhos, e você sente aquela agulhinha conhecida da tristeza dentro da sua exultação quando elas arqueiam e os olhos delas fecham e você sente que elas fecharam os olhos para deixar você do lado de fora, você se transformou em um intruso, a união delas agora é dentro do sentimento em si, o clímax, que atrás daquelas pálpebras fechadas os olhos estão agora totalmente virados e olhando intensamente para dentro, para algum vazio onde você que as levou até lá não pode acompanhá-las”. (DFW, p.365)
o que é o romance psicológico?
é aquele em que é revelado o que as pessoas pensam enquanto estão vivendo. um parágrafo narra os acontecimentos, a interação social, o outro narra o que o personagem acha daquilo tudo de verdade.
neste livro em questão não há interação social. existe ego puro. ego puro hermeticamente fechado se relacionando só com ele mesmo.
os problemas vividos pelos personagens são:
- ou alguma coisa realmente está errada comigo ou alguma coisa está errada comigo por eu achar que há alguma coisa errada comigo e não haver nada.
- vergonha e vergonha por sentir vergonha.
- medo e medo por sentir medo.
- auto-contemplação infinita construindo uma barreira agoniada entre o ego e o mundo de fora.
- tentativa incessante de ser sincero consigo mesmo resultando em recriminações impiedosas por concluir que em última instância só existe o auto-engano.
- jogos mentais, auto-engano, neurose em estado bruto, auto-consciência destrutiva.
- necessidade de ser amado e aceito impossibilitando a emergência de qualquer espontaneidade.
- “tenho certeza de que você mesmo já notou isso em uma mulher muito bonita, que quando se presta atenção nelas elas imediatamente começam a fazer pose, mesmo que a pose delas seja a indiferença com que tentam se mostrar como mulheres que não fazem pose”.
em última instância o livro fala da falta de comunicação que engendra uma fratura entre o ego e o mundo, provocando uma espiral de jogos mentais que conduz sempre ao desespero.
de tabela o livro passa por outros tópicos:
- os limites da literatura.
- excesso de referências culturais, excesso de ironia, formas de ler o mundo cada vez mais auto-conscientes, excesso de conhecimento sobre os signos culturais obstruindo qualquer leitura espontânea do mundo.
em alguns momentos da leitura eu tive o mesmo sentimento de quando li borges pela primeira vez. aquela vertigem do infinito, quando o autor desdobra a narrativa , te passa uma rasteira, e mostra que a situação é muito mais drástica do que parece. no caso de borges isso ocorre a partir de um empuxo metafísico em direção ao infinito, da possibilidade de um conjunto sempre pertencer a um conjunto maior. no caso de DFW isso ocorre nas tentativas do ego encontrar algum terreno em que ele possa achar a redenção.
foi o livro mais triste que li nos últimos tempos. uma experiência totalmente nova. david foster wallace abarcou áreas da psique humana nunca antes reveladas.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
nunca foi tão difícil ser escritor porque nunca foi tão difícil se entregar a essa coisa mais rústica que existe que é a letra.
imagino o escritor de hoje em dia como um malabarista contorcionista se esperneando querendo a todo custo ser sincero, não enganar o leitor, pegar na mão dele e conduzir através de uma historinha que no fim das contas é mentira.
cada vez mais eu me deparo com contos que o que tá sendo narrado é o próprio processo de se fazer um conto. um conto sobre escrever um conto. tudo numa espiral...
não tem como escrever na inocência. escrever é muita maldade. é muito pesado até você encontrar uma plataforma onde você firma um acordo tácito entre você e o leitor, um acordo em que ele vai se permitir ser levado e o escritor vai poder se descontrair e fugir da espiral meta-linguística de ficar pedindo desculpas por escrever.
..........
eu tenho visto muito isso. essa pedição de desculpas por escrever. principalmente em blogs. vários posts começam com um pedido de desculpas, uma justificativa pra escrever o que vem logo depois.
...........
imagine um mundo onde todo mundo teria que ser obrigado a escrever um livro a cada cinco anos. uma obrigação mesmo, tipo tirar o título de eleitor ou servir o exército.
o que seria escrito? como seriam as pessoas? isso seria uma coisa banal ou iria tomar a vida? as pessoas iriam viver pra escrever? iriam se colocar em situações só pra escrever sobre elas depois? o livro seria a linha imaginária que iria construir todas as vidas?
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
ele mostra claramente a passagem do homossexualismo latente e não genital da adolescência para a heterossexualidade genital.
a maior inconveniência da heterossexualidade é justamente aquilo que a classifica assim: amar as mulheres.
já os homossexuais foram preguiçosos e resolveram não correr risco.
mas tanto os homos quanto os heteros tem a degradação das mulheres como postura.
os primeiros com um tipo de nojinho, os segundos com tipo vem cá sua putinha eu só quero te comer.
há que se domar as mulheres. dinheiro, palavras, gestos estão aí pra isso.
quando os psicanalistas falam que o objetivo de uma análise é encaminhar o sujeito para uma posição feminina não é isso que você tá pensando.
é deixar as mulheres enxergarem que não há problema algum em serem domadas, e deixar os homens soltos o suficiente para se exporem na arte de domar.
na época de freud, os pacientes falavam assim:
"ontem eu sonhei que uma mulher se despia para mim. ela não era minha mãe."
ou seja, claro que era a mãe.
hoje em dia os pacientes falam assim:
"ontem eu sonhei que uma mulher se despia para mim. pode ser que seja minha mãe."
claro que era a mãe?
as dúvidas só nos direciona para o principal avanço da psicanálise no último século. o inconsciente não é um recalque de uma situação infantil familiar, papai e mamãe. mas sim de uma condição biológica de não possuir um organismo com uma programação eficiente para a reprodução. papai e mamãe entram na jogada porque são os primeiros que aparecem na nossa frente.
..............
hoje em dia as duas maiores instâncias que tentam tapar o buraco daquilo que é consequência dessa falta de programação é a psicologia (e a psicanálise também) e a genética.
a gente precisa de explicação né? tô falando no discurso do cotidiano mesmo. causa e efeito. coisam acontecem por um tipo de determinação seja genética (a última moda) seja psicológica (mais romântica, mais lúdica, mas cada vez menos criativa). apesar de ainda existir muito marxista por aí, gente explicando tudo pelas diferenças sociais.
e diante dessa carência orgânica a gente tenta sacralizar certas teorias, aquilo mesmo que a religião sempre fez. pega um salmo e lê: vai falar sobre um derramamento de verdade sobre as palavras. desde quando inventaram a filosofia não pode sair falando qualquer coisa por aí. alguma coisa tem que sacralizar as palavras.
o problema é que só existe dentro. não existe nada fora pra falar do que tá dentro porque o fora não existe.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
na cidade pequena todo mundo chama as mesmas coisas pelos mesmos nomes. na cidade grande todo mundo chama coisas diferentes de nomes diferentes.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
eu te garanto que durante algumas horas você vai andar sorrindo e enxergar as pessoas de uma maneira diferente. sua compreensão do sofrimento, de você mesmo, e do outro, vão aumentar consideravelmente. isso tudo depois de você passar por sentimentos que vão aparecendo durante a leitura como asco, pena, indignação, tristeza, raiva.
agora eu quero ser professor de psicologia só pra xerocar esse conto e entregar pra todo mundo no primeiro dia de aula.
o conto não fala que depressivos somos todos nós jogados nessa existência sem sentido dentro de um mundo caótico.
ele fala exatamente o contrário disso. o autor cumpre seu papel de escritor competente ao recolocar as palavras em seus devidos lugares. a pessoa depressiva existe e não tem nada a ver com a tristeza, apatia, melancolia que existe por aí. teve uma hora que eu tive que parar de ler, olhar a cara do autor na orelha, e pensar: como você consegue ser tão desgraçado desse jeito?
mas essa influência vai muito além da temperatura.
por exemplo:
esses dias eu tava vendo um documentário sobre a islândia, o país com maior qualidade de vida do planeta, pelo menos até antes da crise. eles falando que o país é um lugar muito agradável porque cada um dá espaço para o outro crescer porque realmente o país é uma ilha minúscula cheia de acidentes geográficos.
será que o brasileiro é espaçoso porque aqui tem muito espaço?
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
pretensioso é tudo aquilo que você achava que era bom mas é ruim ou tudo aquilo que você achava que era ruim mas é bom.
toda a carga pejorativa da palavra pretensioso é uma defesa contra o desconcerto que alguma coisa nos provoca.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
sábado, 7 de fevereiro de 2009
é quando você encerra uma discussão não porque alguém venceu através de argumentos, mas porque a idéia do outro e a sua são só pontos de vista diferentes.
toda a história, até alguém contando essa história, virou só um ponto de vista e nós somos o primeiro povo na história que sabemos disso.
primeiro isso contaminou as ciências humanas.
agora a tal de física quântica, falando que nosso universo é só uma versãozinha de uma coisa infinitamente maior ocorrendo.
depois a publicidade, que cada vez mais fala pra você questionar, repensar seus conceitos, relativizar, ver pontos de vistas diferentes pras coisas.
por último é o cotidiano, a vida mesmo, nossas relações com as pessoas. é você conseguir convencer sua namorada de ir num restaurante que ela odeia porque na verdade o restaurante não tem nada de ruim, é tudo coisa da cabeça dela.
o massa da psicanálise é que ela não faz drama com isso. ela fala que sempre foi assim. só que antigamente a cultura não deixava ninguém na mão, sem saber pra que lado ir. a psicanálise enxerga isso como uma bela oportunidade pra exercitar a criatividade.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
covarde, sempre.
o suicída não tem mais nenhuma relação com a vida, só com ele mesmo. ele não quer matar a vida. pra acabar com a vida tem que sempre ficar vivo.
ele quer só matar ele mesmo e a vida coincide de ir embora junto.
os irmãos coen produzem o que há de melhor em cinema hoje em dia. pago pau mesmo. tá tudo na internet ó. não adianta reclamar que só tem filme ruim não...
são filmes muito bem cuidados, cada feição, cada movimento, cada silêncio de um diálogo representa alguma coisa. nada é gratuito. são filmes que se parecem com filmes.
seus personagens se parecem com personagens. não tem como existirem na vida real. mas não são estereótipos. estereótipos são do domínio da ironia. seus personagens são charmosos.
em todos os filmes os irmãos coen trabalham com a nocão de acidente.
o que é um acidente?
acidente é um efeito puro, um efeito de causas desconhecidas. coisas aconteceram, isso é real. mas o que causou essas coisas? o que está por trás disso? ninguém sabe.
aí é que entra um elemento totalmente original do senso de humor dos irmãos: a patetice. em todos os seus filmes o clima de patetice é uma constante.
o patetice é uma boa resposta para a vergonha alheia. a patetice não provoca uma riso de escárnio, mas um riso meigo, um riso condescendente, o mesmo riso que damos para as crianças.
que é o somos quando ficamos a merce dos acidentes.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
cheguei a conclusão que o orkut não tem importância nenhuma, não significa nada. eu é que tava dando muita bola praquilo.
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acho que a única superaçao possível para o crescimento do sentimento de vergonha alheia nos dias de hoje é o charme.
charme??? superação???
por que ela deve ser superada se é um pouco bom de sentir?
por justamente ser só um pouco bom de sentir. depois de um tempo vira outra coisa. vira o tédio. o tédio é o único ócio que não é criativo. o tédio é a vergonha alheia por excelência. é sentir vergonha da vida querer viver, do tempo sempre passar e nunca parar.
o que é na verdade a tal da vergonha alheia?
vergonha alheia é você sentir vergonha não só por aquilo que a pessoa está fazendo, mas pela pessoa fazer aquilo e não ter nenhuma consciência disso.
do que eu tô chamando de charme? não tô falando de sedução. tô falando da capacidade de fazer bobagem e ter consciência disso. uma transparência marota. (marota é a melhor palavra pra indicar uma ingenuidade maliciosa).
ou seja: o que existe não é o aumento da vergonha alheia, mas a falta de charme. o tédio é não conseguir sacar o charme da vida.
o caso é que a vida não tem nada a ver com a gente. o charme não está nela, mas naquilo que é humano. o tédio é uma intimidade com a inutilidade da vida, da vertigem do tempo sempre passando.
o crescimento do tédio (quem disso isso?) é por que o charme da vida ficou sobrecarregado em só duas instâncias, a ironia e o cinismo. só consigo dizer que sei das coisas sendo irônico ou cínico.
como o irônico e o cínico sempre fala mas não fala o que me interessa vai ser só entregar os pontos. um pouco de conforto, segurança, estabilidade, sucesso. o irônico e o cínico são legais não por aquilo que eles criticam, mas só por saberem que aquilo que eles criticam nem é tão legal assim.
a crítica das pessoas que acham o mundo um lugar legal é o charme, a celebração, a picardia, a gaiatice, e até um pouquinho de ironia.
só o suficiente pra ningúem ficar se perguntando: tá falando sério ou tá brincando?
querer um mundo melhor é querer que exista um mundo só, que todo mundo se preocupe com as mesmas coisas para todo mundo poder ajudar todo mundo.
a novidade da psicanálise foi dizer que isso nunca vai existir.não existe mundo verdadeiro para todo mundo. existe um mundo legal para cada um.
o que ela aponta de doença não é o fato de cada um ser individualista e ter suas preocupações. mas de alguém não conseguir compartilhar muito bem a experiência de ser individualista tendo suas próprias preocupações.
o que é viver bem?
o que é dentro da gente?
o que seria uma atividade produtiva na sociedade?
o problema é que a vida não tem nada a ver com essas perguntas.
não precisa saber o que é viver bem para se viver bem, o que é o dentro da gente para se conhecer, o que seria uma atividade produtiva pra produzir.
não é bem assim.
isso é muito fácil de fazer, qualquer pessoa pode e deve fazer isso.
por isso que não existe mais nenhum filósofo. filósofo não é pra qualquer um não.
uma coisa é perceber a vida com espanto e escrever um blog, música, livro, encher o saco de alguém num buteco explicando a vida, entrar pra alguma coisa religião fanática, criar oportunidades inusitadas, etc.
outra coisa é explicar por que a gente existe, o que é certo, o que é errado, o que é a morte, por que existe alguma coisa e não o nada.
a filosofia demorou pra sacar que isso não tem uma resposta. um lado falou que não tem nem porque ficar se perguntando essas coisas, o outro lado falou que as respostas estão na cultura e dentro de cada um.
quer dizer então que essa profissão está extinta?
os filósofos sim. mas como eles escrevem muito bem, eles estão esticando o conceito do que o filósofo faz pra ainda acreditar que existem.
mas a filosofia nunca.
a filosofia é uma molecagem saudável, um jogo mental, mas antes de tudo algo que te fizesse viver bem. sendo que viver bem inclui participar com alguma atividade produtiva na sociedade. muito melhor que só ficar com birra ou escrever livros para iniciados.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
chamo de velho todas as pessoas nascidas antes da segunda guerra mundial. ou seja, daqui no máximo cinqüenta anos todos os velhos terão sido extintos.
porque depois da segunda guerra mundial começou a existir o mundo. e as pessoas começaram a serem educadas para o mundo e suas corruptelas - mercado de trabalho ou a vida. e aí deixamos de ser estetas.
passamos a acreditar que existe um projeto para se engajar e o resultado disso é essa idéia medonha que todos somos iguais e a todos precisam ser dadas as chances para vencer na vida e viver com dignidade.
daí surgem todas as aberrações da nossa vida: eu não passei anos na escola estudando todas aquelas matérias pelo simples prazer inútil de conhecer o mundo que me cerca. eu estava ali para ser alguém na vida.
(aí alguns teóricos hoje em dia falam que o mundo passou do ser para o parecer. de boa: a questão sempre foi parecer mesmo).
esses dias minha cunhada me chamou de excêntrico porque segundo ela eu tenho gostos estranhos. eu falei que não era bem assim. expliquei que eu apenas tenho gostos e consigo discernir coisas que eu gosto e coisas que eu não gosto.
o idoso antes de ser excêntrico é velho.
antes eu acreditava que num futuro não muito distante todos seriam adolescentes. mesmas roupas, mesmas músicas, mesmas gírias dos seis aos oitenta anos de idade.
raciocinando psicanaliticamente essa profecia não procede. odiamos o suficiente nossos pais para não suportar a idéia de falar, vestir, opinar como eles para sempre. um outro mundo tem que ser criado, para que, preferencialmente, os adultos não entendam nada.
a principal função da tecnologia é essa.
outro personagem legal seria um serial-killer que caça seriais-killers. no final do livro ele mata aleatoriamente alguém na rua para assim não cometer suicídio.
um livro, uma narrativa, deus tem um projeto de vida para você. ler tantos livros é duvidar de tudo que se lê. eles só precisam de um livro e acabou. tá tudo ali.
eu escuto muita gente que até reza falar que é um católico não praticante. católico não praticante sou eu, que não reza, acha muito esquisito deus ser uma pessoa que se manifesta através de uma trindade, mas que nasceu no brasil, numa pequena cidade de minas gerais, numa família católica.
- duas pessoas me falaram que elas eram uma fraude.
- uma pessoa me falou que eu parecia um personagem de filme cult.
- uma pessoa me falou que a menina ao meu lado falava como uma apresentadora da TVE.
- uma pessoa falou que a menina ao meu lado era uma pseudo-intelectual.
- uma pessoa me falou que não sabia quem ela era.
- uma pessoa me falou que eu fedia.
- uma pessoa me falou que deus existe e quer me salvar.
- duas pessoas me falaram que eu levo a vida muito a sério.
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assisti o curioso caso de benjamim burton. filme bacana. os melhores momentos se parecem com propaganda de banco.
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alguma coisa começou a degringolar quando os simpsons apareceram e começaram a debochar do próprio veículo em que apareciam – a TV.
é o excesso de referências. um humor auto-depreciativo.
como se todo mundo fosse uma caricatura de si mesmo.
como se todo mundo tivesse que pedir desculpas por ter se deixado enganar pelas artimanhas da publicidade.
isso de fato acaba deixando as pessoas um pouco chatas. mas eu não tenho nenhum controle sobre isso. ou eu pareço um idiota me recusando a entender a piada ou pareço um covarde que zoa de tudo porque não quer se comprometer com nada. no fim das contas isso não importa.
por que me preocupar com essas coisas? eu sou um problema de vocês, não meu. não tenho nenhum controle sobre isso. eu só quero entender a piada e não achar nenhuma graça.
mas ainda acredito que a única cura pro excesso de ironia é o amor.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
"a felicidade nunca fez ninguém feliz"
a criatividade dessa frase é colocar em palavras uma coisa óbvia que é muito difícil de expressar sem ser através do sarcasmo, da pieguice, ou da ironia.
se você não tá errado é porque ainda não chegou lá.
não é que a gente fala o que não sente ou sente o que não fala. a novidade da psicanálise foi descobrir que existe um atraso entre as duas instâncias. como se elas corressem em corredores paralelos.
igual aquele pequeno delay na programação de duas televisões ligadas na mesma casa transmitindo a mesma coisa.
eu nunca tive tantas certezas tranqüilas igual na minha infância. sabia quais chicletes eram bons, sabia quem era vacilão, sabia do que um jogo de videogame precisava pra ser bom, sabia quem eram as meninas bonitas e elas eram legais simplesmente por serem bonitas, sabia que hora dormir, que hora acordar, o que era bom de comer, o que não era. etc etc.
o mundo era uma primeira intenção. eu tinha certeza justamente porque eu não sabia de nada disso. hoje sei de tanta coisa que não tenho certeza de nada...
em determinado momento existe uma troca. você perde suas certezas em troca de ser alguém. a máquina tá quebrada. foda-se. não tem como voltar atrás. todo mundo insiste nisso. recuar.
o que você escolhe agora? a paranóia? a ingenuidade? a burrice? o mais constrangedor é que a gente não escolhe nada. só quero meus sentidos preservados, só isso. vivemos no melhor dos mundos possíveis.
na praça da sé um crente berrava dentro de um círculo feito com giz: “vivemos num mundo onde as crianças mandam os pais praquele lugar”. certíssimo. isso é bom ou é ruim?
as crianças estão vencendo. só isso. o ponto mínimo da autoridade dos pais era um mistério que era passado de geração em geração num canto escuro da casa debaixo de luz de vela. agora é tudo tão rápido que nem acontece mais nada. sem memória não há tradição. tradição é uma palavra muito bonita para coisas muito sérias que não tem sentido. o tempo passa muito depressa pra existir mais de uma verdade ao mesmo tempo.
alguma coisa precisa inserir o animal humano numa ordem simbólica. algo de muito sinistro nos antecede. a família vai se tornando totalmente dispensável naquilo que era e vai se transformando numa casinha de bonecas pra adultos imbecis. é aí que o liberalismo e o fascismo se encontram. o primeiro é uma brincadeira inconsciente feita por pessoas inconscientes. o segundo é a mesma coisa. a diferença é ortográfica. é que eu corto o prefixo “in” dos dois adjetivos pra parecer que são duas coisas antagônicas.
dizem que o comunismo acabou. tanto ele quanto o capitalismo acabaram na verdade. a gente simplesmente vive no único mundo possível e esse mundo não tem nome.
porque obviamente alguma historinha precisa ser contada a todo momento. escrita, registrada, escutada, opinada. a solidão é terrível sabe coé? e todo mundo sabe que esse trem de contar história só cria mais e mais fendas. ninguém sabe de nada, ninguém sabe o que diz.
isso é muito bom, porque o que me interessa é a brecha de tudo. eu quero mexer é com as diferenças que são perdidas na discrepância das camadas. aquilo que é falado no jornal e aquilo que o político pensa enquanto caga. eu quero o coletivizão e subjetivizinho. a letra é a mesma. eu posso falar de tudo. tudo é alcançado.
por enquanto eu leio thomas pynchon e sofro de alterações refrescantes de humor.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
essas lanchonetes que colocam nomes de mulheres em hambúrgueres entenderam tudo.
afinal, sempre quando você pede uma coisa você tá querendo outra.
"me acompanhe", o ancião diz.
nos fundos da loja ele puxa um caixote de debaixo de uma prateleira, saca um livro verde, velho, pequeno e me entrega.
na capa estava escrito: A ONDA VERDE, monteiro lobato, 1932.
"leia o índice", o velho mandou.
o livro continha duas novelas. o que estava escrito era mais ou menos assim:
"A ONDA VERDE, ou porque devemos nos preocupar em falar sobre a natureza.
e
2228, O ANO DO PRESIDENTE NEGRO DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA."
levantei o rosto e ele me olhava mostrando os dentes. "que doidera hein..." eu disse.
ele respondeu: "literatura boa não é contar historinha não meu filho, é PROFECIA".
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
o resto todo vem depois.
igual o barack obama.
quem é ele? quais são seus planos para tirar o mundo da crise? que medidas ele vai tomar? quais são suas competências? o que ele está planejando com sua equipe?
ele só é o baraquiobama. ele é preto, meio desajeitado, meio mongolão mas esperto, um cara gente fina. o cara é do hawaí. mandou um HANG-LOOSE pros soldados americanos na maior seriedade.
minha vida não vai mudar em nada e nem estou com as esperanças calibradas confiante no fim da crise.
só acho massa quando escuto um repórter falar ba-ra-qui o-ba-ma e vejo aquela figura acenando pra geral.
nos anos 50 lacan veio e começou a falar que os americanos entenderam a psicanálise tudo errado. que eles adestraram o inconsciente e criaram uma fábrica de adaptar pessoas ao american way of life.
a conseqüência mais nefasta dessa subversão foi a instalação de um clima muito curioso no meio psicanalítico.
como se o camarada bem adaptado, esse que sai do serviço e assisti TV, cordial com a esposa e carinhoso com os filhos, fosse um vilão.
como se fosse bonito ser angustiado. isso somado com a produção cultural da segunda metade do século XX pra cá, que dá espaço para o charme dos fracassados e perdedores (os melhores personagens de filmes e livros são eles), causou um grande mal entendido.
a neurose simplesmente é tudo aquilo que você faz com culpa. em maior em menor grau todo mundo se sente em dívida com o mundo, afinal, alguém nos fez o favor de colocar no mundo.
a psicanálise não deveria deixar se contaminar pelos brilhos da cultura. ela é uma fábrica de tirar culpa, só isso.
os fracassados não vencem porque sentem culpa de vencer. os vencedores não perdem porque sentem culpa de perder.
domingo, 18 de janeiro de 2009
o ódio de certas pessoas por livros de auto-ajuda não é porque eles fazem mal.
é porque eles fazem bem.
O programa big brother é uma pedra no sapato nos formadores de opinião, mesmo eu não sabendo muito bem quem são eles. ninguém sabe esclarecer se o programa é bom ou ruim.
os que falam que odeiam odeiam pelos motivos errados. são pessoas supostamente sofisticadas que não admitem que o brasileiro comum possa ser tão tosco.
os que falam que adoram adoram pelos motivos errados. acham bonito ser tosco.
o fato é que tanto os que falam que odeiam quanto os que falam que adoram assistem.
o primeiro grupo por causa de um tipo de curiosidade mórbida, uma forma de afirmar suas convicções, de ver trogloditas pagando mico e dar lições de moral pro filho, contando que o mundo tá perdido e que os bons tempos já eram.
o segundo grupo assistem pra ter alguma coisa pra torcer. torcem por aparências, por trejeitos, por valores, por vícios, por virtudes.
de perto ninguém é normal. a grande mensagem do big brother para nós é:
de perto todo mundo é tosco.
a psicologia é tudo e ao mesmo tempo é nada.
(?!?!?!)
no mundo em que a psicologia é tudo o ser humano ia ser nada. ia ter um manual e um especialista para todas as atividades e ações humanas. esse mundo é o mais provável de vingar. as tradições e valores que tem funcionado de forma capenga vão desaperecer e ninguém vai querer ficar perdido né, sem saber se sua filha pode dormir na casa do namorado, se eu posso beber cerveja todo dia ou se eu tenho que dar esmolas pros mendigos. a indecisão do mundo de hoje é que todo mundo tá muito bem informado.
no mundo em que a psicologia é nada o ser humano ia ser tudo. todo mundo teria a ousadia e a criatividade de inventar tudo e pagar o preço pelos erros e acertos. claro que também não ia dar certo.
porque antes de tudo a credibilidade é um poder. como todo poder ele tem que ser difícil de ser alcançado. eu não acredito nas pessoas não porque eu sou ruim, mas porque elas são mentirosas.
a sacanagem do mundo moderno é que até quem tem credibilidade tá falando mentira.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
só uma verdade muito desconcertante pode fazer alguém ficar incomodado com a opinião do outro ao ponto de declarar agressivamente que aquilo não deveria ter sido falado.
eu pelo menos nunca vi um diálogo assim:
- como o dia está bonito!
- poisé, está bonito mesmo....
- ninguém pediu sua opinião.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
por isso que eu acho que o banheiro são os templos modernos. é o único lugar onde o tempo passa mais devagar, onde tudo tá no seu lugar, nenhuma informação tentando pertubar o descanso.
o mundo parece que tá bombando o tempo todo. e isso é uma coisa muito recente. acho que as consequências é tornar todo mundo disperso, sem concentração em nada, o que invariavelmente vai contaminar a linguagem e os assuntos. nenhum assunto é aprofundado porque tem tanta coisa acontencendo que não dá tempo. todo mundo tem coisa pra falar.
porque tanta gente fala que ler dá sono? porque o ritmo da formação das imagens na sua cabeça é muito capenga pra magia da televisão e do monitor. muito devagar. a galera quer ação o tempo todo. por isso que o celular fez tanto sucesso. entre a leitura do livro e a formação das imagens na sua cabeça existe um respeito...parece que o livro sempre lhe fornece uma coisa mas esconde outra. ele fornece alguns elementos que viram imagens. aquilo que é escondido é o que é fornecido mas não forma imagem.
não é a gente que não sabe tomar decisões na nossa vida. é o mundo nos dias de hoje que tem muita pressa.
fui num restaurante com minha família esses dias. era aquele atrevimento de informação. tv de plasma ligada, rádio ligado, celular tocando músicas que eu passei a conhecer, gente falando de um milhão de coisas que tão acontecendo no mundo. mocinha violentada, guerra matando criancinhas, crise provocada por algo obscuro, impostos que nunca ouvi falar baixando pra não falir indústrias de carro.
só sei que essa galerinha do futuro vai ser um pessoal muito ansioso. qualquer segundo, qualquer brechinha sem nenhum estímulo, sem nenhuma papagaiada invadindo seu silêncio, vai ser o TERROR. a contemplação e a introspeccção vão se consolidar como coisa de maluco. todo mundo vai ter três pós-graduações, igual uma medalinha de escoteiro.
mas acho que a maior consequência de tudo acontecer tão rápido de forma tão abundante é a sensação de que nada tá acontecendo...
por isso que o principal sintoma de hoje em dia é o tédio. nossa geração foi mimada por acontecimentos.
curioso que duas pessoas que conheço que vivem reclamando do tédio se dão muito bem com a cocaína, justamente porque ela dá a ilusão de te colocar no pique do mundo.
por isso que cada geração que passa as coisas prosaicas como uma folha caindo, o mar batendo na areia da praia, a lua estampada no céu, ou o momento em que você olha aquela menina num ângulo que faz você voltar pra casa pensando nela, vão ficando cada vez mais poéticas. por que ninguém tem tempo pra ver.
o remédio contra esse estoque de "coisas poéticas" que invadem o cotidiano só pode ser o cinismo. o uso do verbo filosofar pra englobar coisas que não tem nada a ver com a filosofia só aumentam. na verdade quem fala que neguim tá filosofando pra qualquer cidadão que usa as palavras "o ser humano", "amor", "a vida", "a beleza de se observar um por de sol na praia", tá falando que esse assunto já era, que não tem mais graça, que ninguém mais fala disso. que diante dá enchurrada de imagens que aparecem todo dia, isso não é mais observável. não se consegue mais falar sobre.
por isso quando a gente assiste amelie poulan a segunda vez é decepcionante. igual quando você compra uma lata de doce de leite e ótimo no início e enjoâ na metade. é uma bomba poética saturada.
se existe uma utilidade na literatura é combater o cinismo refinando cada vez os fatos da vida que cairiam no desgaste do poético. para isso ela tem uma grande ferramenta: o estilo. como você conta a história vai se tornando mais importante do conteúdo daquilo que é contado.
a literatura não é útil porque ninguém lê. com isso o poético vai ficando nas mãos de agentes que sem querer só o banalizam e desgastam.
ae é que cria um oco nas relações. porque hoje dia existe a novidade de casar simplesmente porque se ama alguém. entretanto esse privilégio que a cultura fornece é muito mal regado. por que as mulheres estão tão noiadas hoje em dia? por que elas tão cheias da poética saturada. elas desconfiam. é claro que não é só por amor que as pessoas se casam. mas esse é o critério que se fala hoje em dia. mas isso é tão mal regado que beira o cinismo. como se todo mundo acatasse o que é falado mas no fundo todos sacam que as coisas não são bem assim....
por isso o que me resta é ser totalmente selvagem. minha meta são as mulheres desinformadas, desinteressantes...são elas que vão me entender e me deixar amá-las. acho que daí que vem meu fascínio por aquelas russas do bairro são pedro. se elas fossem bonitas eu já tava com uma na certa....
mulher não é misteriosa porque é e não é a obscura fagulha cálida no vórtice das criações como diria clarice lispector.
ela só é indecisa demais pra saber o que quer.
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duas semanas com bigode. estava na praia e achei que seria uma boa idéia. na verdade manter o bigode nada mais é que uma forma muito simples de evitar aborrecimentos. uma forma de mostrar que tá tudo tranqüilo e que sou um cidadão responsável.
assim quando me formei no final do ano passado e familiares e amigos vinham me perguntar diante da minha cara imberbe qual eram meus planos e eu respondia que por enquanto só estava de férias eles sempre tinham a inconveniência de prolongar esse assunto besta me perguntando: E DEPOIS DAS FÉRIAS?
hoje em dia, já de bigode, quando eu respondo que por enquanto estou de férias, eles se calam.
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esses dias eu vi um vídeo muito engraçado no you tube. era o fly, aquele dançarino da xuxa da época que o dj marlboro era amigo dos baixinhos, ensinando a conquistar uma fêmea na noitada.
com vinte segundos de vídeos ele solta: “ó parceiro....não tem hora pra chegar chegando beleza? no final das contas é ela que sempre escolhe!”
calma aí. se é ela que sempre escolhe que diferença essas dicas vão fazer seu animal?
é por isso que não há nada com o que se preocupar na balada. o que tem que acontecer vai acontecer.
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a propósito:
o único critério pra definir se alguém é ou não é uma boa pessoa hoje em dia é se ela se envergonha ou não após pronunciar a palavra BALADA.
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a propósito:
muitas pessoas relacionam caras barbadas com uma urgência de virilidade. como se os pobres-coitados dos barbudos estivessem implorando por ter sua masculinidade reconhecida.
papo furado dos brabo.
quem se barbeia regularmente perde a virilidade de ter barba.
quem não se barbeia regularmente perde o ato viril de ser barbear.
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a psicanálise tem como um função um narcisismo às avessas.
o verdadeiro narcisista nem gosta tanto de si. se acha tão importante aos olhos do outro que só resta a covardia. o outro é tão importante para ele que o caminho é a servidão neurótica e a garantia do amor.
essa coesão diabólica é responsável tanto pelo berro “EU NÃO SOU NINGUÉM” que um bêbado gritou na rua ontem de madrugada quanto pelo fato de todo mundo trabalhar e não sair pelado na rua.
a psicanálise alarga as relações entre o ego e o outro. como se você passasse a saber que o outro é só o outro...uma espécie de mistério amigável.
a aventura de atravessar esse narcisismo conduz a um narcisismo sem dono. o ego pode tudo, mas ele não é nada.
é uma megalomania solene.
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coisas que eu sinto saudade:
- areia movediça
- precipício sem fim
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quando algum estudioso diz que a contemporaneidade enfrenta uma crise é a vida dele que está em crise.
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certa vez passei por uma experiência inusitada. fui chamado às pressas para fazer uma ponta num trabalho de faculdade no qual eu deveria atuar como um pai de família de uma crônica do veríssimo.
tanto os participantes quanto o professor elogiaram minha atuação.
o motivo desse disparate é simples.
o bom ator é qualquer pessoa na ridícula situação de ser ela mesma sob o foco de uma lente.
o ator mediano é qualquer pessoa atuando bem.
o mau ator é qualquer pessoa atuando mal.
uma das coisas mais constrangedoras do mundo moderno é o uso e abuso da palavra pseudo-intelectual.
deve haver algum prazer secreto em pronunciar essa marota seqüência de um s após o p.
para ser intelectual aqui no brasil basta falar que não gosta de televisão.
para ser pseudo-intelectual é só ler livros.
o maior vexame que a filosofia deu no século passado foi ter perdido as referências que cercam a pergunta QUAL O SENTIDO DA VIDA.
no século XVIII, se no meio de um jantar eu arrumasse minha peruca e elegantemente indagasse QUAL O SENTIDO DA VIDA seria considerado um camarada no mínimo astuto.
no século XXI, se no meio do almoço de domingo na casa da minha avó discretamente insinuasse a pergunta sobre QUAL O SENTIDO DA VIDA, seria motivo de piada e passaria vergonha.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
psicanalista é uma criatura medonha. a relação da cultura com eles é uma mistura de fascínio, execração e piada.
o motivo disso é porque todo mundo sabe que eles sempre tão certos. não por mérito deles. mas por simplesmente enxergarem o óbvio.
um exemplo:
todo dia sem perceber passava a sessão com os braços cruzados. um dia o psicanalista falou: o que você faz é sempre cruzar os braços pra vida...
o que é psicanálise selvagem?
esse termo foi criado pelo próprio freud pra indicar análises precipitadas e sem fundamento de pacientes e de fatos.
um exemplo:
não como couve porque quando eu tinha cinco anos meu pai falava que minha orelha era do tamanho de uma couve. não como couve por inconsciente achar que comê-la é comer minha orelha.
não não...acho que essa até passa.
é tipo alguém falar que eu não gosto de leite porque minha mãe não me segurava com carinho ao amamentar, por mais que eu diga que é porque o leite dela era muito ruim.
freud deu um nome negativo pra coisa que ele mais fazia. na verdade psicanálise selvagem era toda análise que outra pessoa que não ele fazia....
etâ velho difícil!
oi. bem vindo. esse blog é resultado de duas frustrações minhas. sou um jornalista frustrado e um psicanalista frustrado.
os jornais, as notícias, o cinismo travestido de seriedade, a falta de humor, a sede das pessoas por objetividade...tudo isso me fez largar o jornalismo.
só me interessa a psicanálise selvagem. praticá-la seria ser escorraçado pela academia, pelas instituições com nomezinhos estranhos, pelos meus amigos de profissão...
não existem opiniões, só existem fatos, já dizia meu guru. é nessa rocha dos fatos que eu coloco minha cadeira e observo as coisas.

