sexta-feira, 17 de agosto de 2012

"o inevitável é sempre o melhor"

 "o que não tem remédio já está remediado"

terça-feira, 8 de maio de 2012

propaganda de um empreendimento imobiliário: "agora você já tem um só lugar para morar, trabalhar, e se divertir". uai, isso já não é a cidade?

terça-feira, 23 de agosto de 2011

"As pessoas dizem que não é o que acontece em sua vida o que interessa, mas o que você acha que aconteceu. Mas essa ressalva, evidentemente, estava longe de ser satisfatória. Era bem possível que o evento central de sua vida pudesse ser alguma coisa que não aconteceu, ou alguma coisa que você achou que não aconteceu. Não fosse assim, não haveria necessidade de ficção, haveria apenas lembranças e histórias, históricos de casos; o que aconteceu - o que efetivamente aconteceu e o que você achou que aconteceu - bastaria."

terça-feira, 26 de julho de 2011

"Será que a atividade post-mortem dura muito pouco tempo, confusa e delirante, e que, por ser neutra ou cada mais dolorosa, cada vez menos dolorosa, até ficar prazerosa, as pessoas que conseguiram dar seu testemunho sobra a volta de um coma profundo ou de uma letargia deram a cada uma dessas possibilidades o nome de limbo, inferno, purgatório, paraíso?"

segunda-feira, 4 de julho de 2011

no caderninho, sempre intercalar citação de lição de vida com lista de compras no mercado.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

hoje eu sonhei que eu tava cego, fiquei desesperado, mas eram só as luzes que estavam apagadas.

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ontem sonhei que eu tava dentro de um avião, durante uma alvorada ele ia decolar, mas sem mais nem menos ele saiu andando por uma estrada onde cada curva era fragmento de uma estrada diferente, igual uma pista montada no stunts. daí lembrei que aquilo estava muito estranho, pois não pediram para abotoarmos o cinto de segurança. no fim das contas o piloto alegou que o avião não decolou porque não ventava, era só prestar atenção como os pássaros cantavam.

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"por baixo de tudo, corre o desejo do esquecimento."


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quando mais velhos ficamos mais perdemos nossa capacidade de conversar. nossa paixão pelo familiar, por aquilo que soa cômodo e sem arestas, nos impede de reconhecer como as pessoas são inescrutáveis.

mas o que nós vamos fazer? o que eu tô querendo? o casamento e a amizade têm que acolher nossas esquisitices, nos eventos sociais (quero dizer aqui toda situação de convívio compulsório) resta a bebida, a comida, e a imaginação.

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"precisava ficar sozinho, para não me sentir solitário."

segunda-feira, 27 de junho de 2011

"depois que você faz quarenta anos", disse eu a Matt, "nada no mundo surpreende mais. Depois que você faz quarenta anos, entende que a vida é mesmo para ser desperdiçada."

terça-feira, 21 de junho de 2011

afinal, a noção de que o mundo está em crise seria apenas uma projeção de nossa angústia?

a resposta pode ser afirmativa se eu considero a presença da ideia de FIM DO MUNDO no nosso cotidiano como uma projeção da consciência de nossa morte, para uns mais, para outros menos, (ninguém sabe), iminente.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

neguim reclama que as coisas dão errado, o voo atrasa, a água falta, a ligação do celular tá cortada, o carro não pega, ninguém aparece, o copo quebra, o café derrama, a geladeira estraga, alguém morre.

o que me espanta é como as coisas podem dar certo, os ônibus não batem, meu despertador funciona, o sol sempre aparece, o pão não vacila, a gostosa sempre passa, minhas pernas funcionam, meu coração não para de bater, meu sono aparece, a descarga funciona, ninguém morre, o teto não cai.

sendo absurdamente pessimista me amparo no avesso do acidente, o acidente da vida.

a vida não é uma dádiva, ela só resiste.

terça-feira, 7 de junho de 2011

"A diferença entre o diário íntimo e o blog pessoal é o que me faz ter horror dos blogs. E só agora, passado o momento em que tudo era novidade e surpresa, é que me lembro disso. Porque já não tenho o que dizer. Que é que vou dizer se o que eu penso ofende sempre pelo menos uma pessoa próxima? Se eu fosse escrever num blog o que se escreve nos diários, em uma semana já não tinha amigos (nem herança). E esse é um escrúpulo que o autor do diário não tem, porque, em princípio, não escreve para ser lido nem publicado (em vida, pelo menos). O blog, ao contrário, é escrito só para isso, descaradamente. Seu objetivo primeiro e principal é se fazer publicar e ser lido. A ideia é fazer, mais do que amigos, “seguidores”. A medida da qualidade do blog pessoal é o número de acessos, como aliás quase tudo na internet. E daí que o que se escreve num blog pessoal é sempre calculado, por mais íntimo, verdadeiro, grosseiro ou ofensivo que pareça. É sempre a imagem que o autor quer vender de si, seja ela qual for. O blog é herdeiro do marketing pessoal. Vive de e para a autopromoção. O que ele mostra é o que o autor quer mostrar de si. Tanto faz se é por vaidade, por narcisismo ou por carência. É o oposto do diário. Ninguém quer perder amigos."

sexta-feira, 3 de junho de 2011

em sua autobiografia nabokov fala muito a respeito da sua paixão pelas borboletas.

sobre os mistérios do mimetismo, a capacidade de um animal tem de camuflar-se, etc, ele aponta o seguinte:

"a seleção natural, no sentido que falou darwin, não basta para explicar a miraculosa coincidência de aspecto imitativo e comportamento imitativo, e nem se pode apelar para a teoria da luta pela sobrevivência quando um recurso de proteção é levado a um ponto de sutileza, exuberância e riqueza mimética que excede de muito a capacidade perceptiva do predador".

confesso que quando li o fragmento acima fiquei arrepiado ao pensar que a natureza SABE que a gente existe; que, se Ela se excede, é porque sabe que tem alguém pra ver.

mais um passo eu acredito que há um Outro do Outro, que em outras palavras é um indício que pode haver alguma coisa parecida com o que se chama de Deus.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

"...o surgimento da consciência reflexiva no cérebro de nosso ancestral mais remoto deve ter certamente coincidido com o despertar da percepção do tempo".

quarta-feira, 18 de maio de 2011

"Na minha opinião, é uma pena haver tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes que existem é que a única coisa que um homem pode fazer durante oito horas por dia, todos os dias, é trabalhar. Você não pode comer oito horas por dia, nem beber oito horas por dia, nem fazer amor por oito horas — só trabalhar é o que você pode fazer por oito horas. E é por essa razão que o homem faz a si mesmo e a todos os outros tão miseráveis e infelizes."

não acredito neste parágrafo, mas ele é bonito.

quando a gente faz alguma coisa a gente não tá fazendo só aquela coisa.

conseguir ordenar uma palavra atrás da outra não significa que a vida possa ser escrita.

terça-feira, 10 de maio de 2011

"Para Benjamin, as sociedades baseadas no artesanato viviam num tempo lento e orgânico, ritmado pelos trabalhos manuais, um tempo em que as experiências individuais podiam sedimentar- se e transmitir-se gradualmente em tradições compartilhadas, como as formações minerais que se depositam gota a gota. A civilização industrial havia esfacelado esse mundo feito de vagar, memória e contemplação. No século 20, os acontecimentos passaram a se amontoar de forma tão veloz que a mente humana se tornou impermeável à realidade. Desnorteado, desprovido daquele senso de pertença que era tão natural aos artesãos de outrora, o homem industrial estava condenado a ser o fragmento de um quebra-cabeça cuja forma não percebia. “Por isso, parecemos estar perdendo uma faculdade que antes nos parecia segura e inalienável”, escreve Benjamin, “a faculdade de intercambiar experiências”.

terça-feira, 26 de abril de 2011

a maior prova que FREUD errou de forma grosseira ao dizer que a vagina era uma ausência, um vazio, algo não representável, é a tarja-preta ou um embaçado no vídeo cobrindo a púbis quando alguma mulher aparece pelada na televisão.

terça-feira, 12 de abril de 2011

"Quando não vemos significado numa coisa, podemos desenvolver uma postura desleixada em relação a ela. Isso abre caminho para diversas consequências. É como desprezar as leis de trânsito e tentar andar na contra-mão. Não interessa que não aceitemos ou conheçamos outra lei “superior”. Ainda correremos o risco de nos envolver em acidentes.

O efeito colateral de se estar envolvido com ideologias ou caminhos espirituais, é que você fica viciado em “significados maiores”. E tende a sentir-se ou superior, ou desmotivado, ou simplesmente desconectado das tarefas cotidianas. Desrespeita a seriedade que as pessoas dão às suas próprias ilusões. E acha-se esperto por isso.

Porém, por mais que não acreditemos nessas coisas, elas ainda nos influenciam. Ainda precisamos lidar com elas com respeito. Ou melhor: com carinho. Porque, por um lado, é a ilusão dos meus companheiros de existência. POR OUTRO, É MINHA PRÓPRIA ILUSÃO. E, além dos pontos de vista, é a exibição da natureza da mente.

Desleixo é um jeito de fugir da nudez e aspereza do momento presente."
há uns três anos atrás eu tinha uma conexão jóia com a internet e muito tempo livre. baixava filmes, músicas, assistia no mínimo a um filme por dia e me vangloriava de deletá-los instantaneamente após assistir alegando desapego. um dia um amigo me perguntou: mas você não tem amigos?
ontem pouco antes de cair no sono eu vi o espelho negro da vida. eu estava pensando em como é bom eu ter vivido até agora sem nunca ter precisado recorrer à Polícia, de nunca ter entrado numa delegacia, e de como é bom dormir de porta aberta, tô falando da porta escancarada, o vento entrando balançando minhas roupas no cabide, e eu vi o espelho negro da vida, parece que "eu" fiquei vislumbrando a vida de banda, senti que tudo vai desaparecer e que tudo é muito pequeno e espetacular visto de dentro dessa perspectiva alienígena, a vida é alienígena, que papo é esse, é que depois eu dormi sem pensar em escrever isto e agora no serviço eu pensei em escrever só pra não me esquecer desse espelho negro da vida quando eu estiver com medo, sofrendo, ou com tédio, porque eu acho que escrever isso é bordar um bolso onde eu possa colocar esse antídoto contra a vulgarização de tudo que há, porque ter medo, sofrer ou sentir tédio é inevitável, agora passar por isso gargalhando por dentro é o segredo da poção, porque tudo que acontece é bom e é certo, porque tá acontecendo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

"Mas então, eu estou assistindo desenho animado aqui, certo? E esse um do Pato Donald está me deixando completamente pirado?" Sauncho não tinha tanta gente assim com quem pudesse conversar na vida e sempre considerou Doc um alvo fácil.

"É assim o Donald e o Pateta, certo, e eles estão num bote salva-vidas, à deriva em alto mar? Parece que semanas a fio? E o que você começa a perceber depois de um tempo, nos close-ups do Donald, é que ele está com uma barbinha rala? Assim, crescendo no bico? Dá pra ver quanto isso é significativo? A gente sempre teve esse imagem do Pato Donald, a gente presume que a cara dele é essa na vida normal, mas na verdade ele sempre teve que ir lá todo dia e barbear o bico. Pro meu juízo, deve ser a Margarida. Você entende, ou seja, que outro tipo de exigências de aparência aquela galinha anda impondo, certo?"


quarta-feira, 23 de março de 2011

"Os cientistas ainda não desvendaram totalmente esse mistério, mas acreditam que os urubus se deliciam com comida estragada sem passar mal graças ao seu sistema imunológico e ao potente suco gástrico secretado por seu estômago. Mas isso não significa que eles prefiram carne podre à fresquinha. Acontece que os urubus não têm habilidade para caçar, pois as garras de suas patas são ineficientes para essa tarefa. Assim, só lhes resta a carcaça de animais mortos."

segunda-feira, 21 de março de 2011

"VIDA-LAZER", não esquecer.
esboço de felicidade: voltar para a casa após um dia de trabalho, ver o lar em chamas, constatar: ok, não perdi nada de importante.

quarta-feira, 16 de março de 2011

hoje eu vi um mosquito da dengue perdido no escritório, as listras brancas no corpo preto, um voo desengonçado, será que ele mordeu alguém? pousou num casaco jogado na cadeira ao lado, exclamei "olha um mosquito da dengue" e não só mataram como aniquilaram o corpo do inseto de tal maneira que não pude comprovar se era ou não um mosquito da dengue.
quantas repetições são necessárias pra pessoa ter uma opinião?

ela visita um outro estado, precisa interagir com três pessoas, três pessoas que estão tendo um dia difícil (não tá fácil pra ninguém), as três pessoas tratam-na entre a indiferença e o tratar mal, o que na sua cabeça significa espalhar (no fim das contas fazemos as coisas só para contar depois) que o estado não presta, os moradores deste estado são todos mal educados, etc.

nada se repete, ninguém é confiável mas todos falam uma verdade. a surpresa só pode advir quando eu não acho nada, não tenho opinião, o que pra mim pode equivaler a viver na corda bamba de ter mil opiniões sobre cada dado.

o lastro de continuidade do mundo é nossa primeira educação, e se o mundo (quem é o mundo meu deus?) nos educa acima de tudo a consumir e a viver automaticamente, a sequela é narrarmos a vida com bordões mal ajambrados.

terça-feira, 15 de março de 2011

no banheiro do clube em que eu nado tem um adesivo colado no espelho e este adesivo diz: o olho de deus tudo vê.

"não sei se vai me entender - começou a dizer -, mas tenho uma teoria...

me explicou que na sua opinião, depois da morte de Deus, o homem continua sentindo a necessidade de que alguém o observe.

isso nos levou - disse - a inventar vigilantes sem nenhuma transcendência."


nunca tem ninguém vendo nada, de certa forma somos todos fantasmas. o terror desta verdade remonta ao primeiro choro, ao ter que ser visto para poder se alimentar e existir.

acredito que a qualidade de vida, esta palavra que deveria ser resgatada pelos poetas das mãos dos publicitários e administradores, é o quanto a pessoa sabe que não há Olho real nem simbólico, apenas gente.

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sempre gosto de reparar nos adesivos, principalmente dos carros, e hoje de manhã, pelo segundo dia consecutivo, bati o olho na seguinte mensagem:

"ainda não desisti de você"

em cima havia um jesus apontando um dedo, um jesus cristo tio sam meio zumbi.

sexta-feira, 11 de março de 2011

principal entretenimento do brasileiro dentro de casa: assistir TV.

maiores patrocinadores da TV: carro e cerveja.

não que eu ache que as pessoas sofram acidentes porque assistem muita TV, mas alguma relação deve haver aí.

quinta-feira, 10 de março de 2011

parem de conjugar o verbo "mochilar". é sério.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

outras duas boas metas:

- viciar em nicotina só pra tentar abandonar depois.

- cair em depressão aos 40 anos e voltar à adolescência.
uma boa meta (nunca será realizada): tornar-me obeso só pra emagrecer depois.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

e essas propagandas de cerveja hein?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

"Alguém disse a Rumsey numa noitada, foi o Dockery, o publicitário piadista, que sua vida ia mudar completamente, a vida de Rumsey, se mudasse uma das letras do nome dele. A em vez de U. Ele seria então Ramsey. Era o U, o rum, que havia dado forma a sua vida e sua mente. A maneira como ele anda, como fala, esse jeito desleixado, até mesmo o tamanho e a forma dele, tudo que há de lerdo e espesso nele, o jeito de enfiar a mão dentro da camisa para se coçar. Tudo isso seria diferente se o nome dele fosse Ramsey."

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"Ele começou a pensar em cada dia, cada minuto. Era por estar ali, sozinho no tempo, que isso acontecia, por estar longe dos estímulos rotineiros, todas as formas fluentes de discurso profissional. As coisas pareciam imóveis, pareciam nítidas para a vista, estranhamente, de modos que ele não compreendia. Ele começou a ver o que estava fazendo. Reparava nas coisas, todos os pequenos golpes perdidos de um dia ou um minuto, seu jeito de usar o polegar e usá-los para pegar uma migalha de pão no prato e levá-la à boca, um gesto sem sentido. Só que não era mais tão sem sentido quanto antes. Nada parecia familiar, ali, numa família outra vez, e ele se sentia um estranho para si próprio, ou então sempre se sentira assim, mas agora era diferente porque ele estava observando."

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

da diferença entre as religiões e o Santo Daime por doutor Weiss

"Um dos aspectos mais surpreendentes da teologia é o enorme trabalho realizado pelos teólogos para elaborar um sistema que tem como base uma experiência incomunicável. Santo Tomás interrompeu a redação da Suma Teológica no dia em que finalmente teve, depois de tanto suor, uma autêntica experiência mística. Um fato da importância da certeza sobre a existência da divindade pode prescindir de todo comentário. Mas a teologia, que é essencialmente política, não incomoda ninguém. A mística, em compensação, é teologia empírica, e sempre acreditei que sua aplicação prática é capaz de semear o pânico da Igreja, na Corte, e nos lupanares."
essa monotonia adormece

certa vez, viajando de barco, observei uma coisa que eu nunca vou esquecer.

a descarga da cisterna do banheiro coletivo não parava.

desde então sempre tento tirar um sentido disso.

quer dizer, não bem um sentido, mas um argumento, porque algo em mim sabe que a descarga que não para nunca e o barco em movimento em cima de um rio que não para nunca tem alguma coisa, algum sentido que não consegui representar num argumento.

hoje encontrei esse argumento na boca dos outros:

"Os ruídos rítmicos do deslocamento, quer estejamos em carruagem, carreta, coche de postas ou a cavalo, repetindo-se idênticos durante longos trechos, por causa da regularidade, quando não da ausência, dos acidentes do terreno, parecem repetir também ao infinito o mesmo instante, como se a faixa incolor do tempo, embaraçada na mosca da roda ou seja lá o que for que a desloca, titilasse num ponto imóvel por não poder, devido à sua essência constituída de pura mudança, interrompendo-se, descansar."

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

"a sede inexaurível por outros lugares."

"a gente não é Ninguém quando está sozinho."

"o instante, respeitado amigo, é morte, só morte."

"mas o que é baboseira para um sujeito é a vida do outro."

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

"Se os homens vivem na barriga de uma baleia
só podem sentir frio e falar
das manadas periódicas de peixes e de muralhas
escuras como uma boca aberta e sentir muito frio.
Mas se os homens não querem falar sempre da mesma coisa
tratarão de construir um periscópio para saber
como se desordenam as ilhas e o mar
e as demais baleias - se é que tudo isso existe.
E o aparelho há de ser fabricado com as coisas
que temos à mão e então começam os incômodos, por exemplo
se de nossa casa arrancamos uma costela
perderemos para sempre sua amizade
e se o fígado ou as lâminas córneas é capaz de nos matar."

terça-feira, 16 de novembro de 2010

"Como e porque a nossa mente se engana?

Pela sua própria liberdade ela se esquece de sua liberdade e passa a operar de forma restrita."

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

esses dias alguém me disse que quem não olha nos olhos não presta.

comentei que podia ser timidez.

ou medo, responderam.

mas medo de que?

o medo, a mais presente das sensações, é a menos real de todas.

observei que o mais provável é que todas as pessoas que olham nos olhos sejam todas caras-de-pau.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Meu ventilador tem três potências, UM, DOIS, TRÊS.

Com a função de acionar a rotação afundando um botão, ele passa a ter seis potências.

UM girando, UM parado, DOIS girando, DOIS parado, TRÊS girando, TRÊS parado.

De uns tempos para cá a função DOIS e TRÊS só funcionam acompanhadas de um barulho que não tem como suportar.

Passei a usar só a potência UM, e descobri que as outras potências são totalmente dispensáveis, que o único critério para ventilar mais ou menos é onde posiciono o ventilador.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Pensar em dinheiro para não pensar em dinheiro.

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A chamada felicidade conjugal deve ser conseguir brigar por coisas para além do "meu marido olha pra bunda das outras mulheres" ou "minha mulher só pensa em comprar".

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"Não há nada pior que a fama, e a realidade tem essa fama de sobra".

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

“Somos como os outros nos vêem, concordo. Eu, porém, resisto a aceitar tamanha injustiça. São anos tentando ser o mais misterioso, imprevisível e reservado possível. São anos tentando ser um enigma para todos. Para isso, com cada pessoa adoto uma postura diferente, procuro fazer com que não haja duas pessoas que me vejam da mesma maneira. Sem dúvida, essa esforçada tarefa se está revelando inútil. Continuo sendo como os outros querem me ver.”

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

um dia é muito mais longo que dez anos.

as lembranças de dez anos, dos 20 aos 30 por exemplo; ou melhor, o ato de lembrar o que ocorreu dos vinte aos trinta anos de idade dura muito menos do que o ato de lembrar o que ocorreu em um dia.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

"o caráter se forma nos domigos à tarde."
esses dias fui comer um churrasquinho na esquina e alguém dizia:

"todo mundo que quer ganhar na mega-sena fala que vai viajar".

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

IDÉIA DE NEGÓCIO:

MONTAR UM RESTAURANTE NUMA PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO DE UM SHOPPING. AS REFEIÇÕES SERIAM FEITAS A PARTIR DA COMIDA DOS PRATOS DEIXADOS NAS MESAS. OS PREÇOS IRIAM VARIAR DE ACORDO COM INCOLUMIDADE DOS RESTOS.
ninguém tá nem aí, nunca.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

histórias que mais gosto de ouvir:

- relatos de assalto
- causos de chamego/flerte/conquista

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

esses dias eu li no jornal uma pesquisa sobre o que mais causa raiva nos motoristas.

em primeiro lugar ficou os buracos das ruas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"...um equilíbrio mental que parecia isolá-la dos conflitos e agressões da vida moderna: insegurança, inveja, sarcasmo, a necessidade de julgar ou diminuir os outros, a insuportável e escaldante dor da ambição pessoal."

o único critério pra definir quem é VIRTUOSO é saber o quanto mal adaptada a pessoa é.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

"Ser adulto é ser assassino. Os pacifistas e não combatentes estão apenas enganando a si próprios, deixando que os outros façam o trabalho sujo."

terça-feira, 20 de julho de 2010

O lixo, ensacolado numa sacola de mercado, colocado pra fora da nossa casa, é um tipo de presente.

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A CURIOSA SIMETRIA ENTRE O AÇAÍ PREPARADO NA MINHA CASA E O TACACÁ CONSUMIDO PELAS RUAS. OBS:AMBOS CONSUMIDOS NA CUIA

açaí = tucupi
açucar = goma
tapioca = jambu
banana = camarão


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"pois o fato é que a pessoa precisa de um bocado de autoconfiança para poder fazer pouco de si mesma".


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esses dias alguém me falou que certa pesquisa dizia que as pessoas se apaixonam e começam a namorar com pessoas do ambiente de trabalho.

isso o ocorre porque as pessoas passam tempo demais ali dentro, só isso. só isso.

terça-feira, 13 de julho de 2010

UNIVERSIDADE

matrícula, xerox, pasta, seminário, ABNT, trabalho, prova, nota, crédito, especialização, transferência, disciplina, professor, linha de pesquisa, currículo, artigo, congresso, pauta, tamanho da fonte, trabalho em grupo, capa, bibliografia, carteirinha, corredor, fila, sala, diploma, fundo de formatura, estágio, horas complementares, encadernação, grampo, resumo, conclusão, objetivo, matéria, grupo de estudo, palestra, bibliografia, conceito, mestrado, espiral, apresentação, grupo, atividade, nota, colação de grau, didática, sala de aula, dinâmica de grupo, nenhuma saudade.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

É sempre uma coisa pessoal, até quando não é.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

o problema metafísico "se o mundo existe mesmo ou se só existe dentro da nossa cabeça", pode ser resolvido por uma professora do primário:

substantivo concreto é o que existe por si só, substantivo abstrato é o que precisa de alguém para existir.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

As baratas precisam é de carinho.

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inventamos a rotina pra escaparmos da Rotina Absoluta que é a vida. nessa rotina dá pra fazer uma baguncinha.

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colocou-se tanto no lugar dos outros que ficou sem lugar.

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quem é goleiro bruno?

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gente que diz não fazer nada pra agradar os outros para acabar agradando a si mesmo.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Paradoxo da Leitura Dinâmica

Quanto mais rápido eu leio, mais tempo passo lendo.

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gente que de tão legal é chata.
gente que pede pra visitar cozinha de restaurante.

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Ontem andei num ônibus equipado com um monitor que passava a seguinte curiosidade: o grasnar dos patos nunca gera eco.

Não tirei nenhuma conclusão sobre isso.

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coisas que eu só vejo em filme:

- criança com amigo imaginário.
- alguém vomitar depois de receber uma má notícia.

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coisas que eu nunca vou comprar:

- perfume
- óculos escuros
- gravata
- uísque

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igual a gente tem uma idade pra acreditar em papai-noel, acreditar que leite com manga mata, acreditar que o homem não foi à lua, também temos uma idade para ir na Missa.

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"O turismo é um pecado. Viajar a pé é uma virtude. No momento em que as pessoas entendem que você chegou a pé, e está tentando misturar-se a elas e compreendê-las, ocorre uma mudança imediata em seu comportamento. A pé, você não é perseguido nem impedido de usar os recursos dos outros. Você ouve histórias que não foram contadas a mais ninguém."

quarta-feira, 30 de junho de 2010

curso de cinema é o novo curso de turismo.
"odiar é uma humilhação".
quer ter emoções e surpresas nesta vida?

não espere nada das pessoas.
gente que também adora ler.
gente que odeia paulo coelho.
gente que compra a biografia do cid moreira.

terça-feira, 29 de junho de 2010

gente que comenta que o livro é sempre melhor que o filme.
gente que acha que copa do mundo existe para alienar o povo.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

"O mundo tem remédio?

O mundo está vivo, e nada vivo tem remédio, e essa é nossa sorte."

quarta-feira, 12 de maio de 2010

“ a ignorância é a felicidade que não se sente.“

“ a primeira condição da felicidade é a ausência de consciência da felicidade.“

o que se conclui...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

“Pois na relação de Marcelo com a literatura tem-se frequentemente a impressão de que persistem traços da adolescência, época em que não se lê por prazer, por curiosidade ou por obrigação, mas sim devido a uma incontornável urgência de conhecer o mundo e conhecer a si próprio, mas também, paradoxalmente, devido a uma urgência contrária: a de negar o mundo e negar-se a si próprio, não tanto com o objetivo de vivenciar vicariamente todas as vertigens e deslumbramentos que uma realidade pobre e previsível não permite vivenciar, quanto com a vontade de se vingar dela: de suas insuficiências, de suas ingratidões e asperezas, de suas humilhações, de seus fracassos - e talvez por isso Marcelo goste tanto de repetir uma célebre frase de Cesare Pavese, segundo o qual a literatura é uma defesa contra as agressões da vida. Talvez também por isso a experiência da leitura, que segundo ele é mais árdua, mais nobre, mais intensa e mais fecunda do que a da escritura, consista para Marcelo num duplo e contraditório movimento de afirmação e negação do mundo e da própria identidade que transforma o leitor num viajante imóvel que foge da realidade e de si mesmo para entendê-la e se entender melhor. Quem sabe essa idéia explique o fato de que, dentre todos os gêneros literários, Marcelo prefira o romance e, dentro todos os gêneros de ficção o cinema: o primeiro é, segundo ele, poesia por outros meios; o segundo, teatro. “

segunda-feira, 26 de abril de 2010

como emagrecer? coma menos e faça exercícios.

qual o segredo da vida? não tem segredo.

entre numa livraria, observe a quantidade de livros sobre como emagrecer.

observe quantos livros sobre como lidar com a vida.

quanto mais óbvia é a resposta maior a dispersão.

a verdade é uma piada.

a seriedade é artificial e dá trabalho.

camadas e mais camadas de gordura.

tornar-se impermeável ao mundo.

sábado, 10 de abril de 2010

trabalhar é coisa de quem não tem o que fazer.

quarta-feira, 24 de março de 2010

acabei de ler O LIVRO DE OURO DA AMAZÔNIA e o cara me falou pra eu parar de comer churrasquinho e assim salvar a floresta.

eu tenho que escolher: ou o churrasquinho ou a floresta.

vou mandar um email pra ele perguntando se apertando a descarga apenas um vez por dia e não usando copos plásticos eu posso comer tranquilo meus CHURRASQUITOS.

segunda-feira, 15 de março de 2010

agora já podemos falar "isso tudo é coisa da sua cabeça" embasado nos últimos avanços da neurociência.

cientistas estão concluindo que nossa cabeça forma as imagens e impressões muito mais com o conteúdo que já existe dentro do cérebro, com a memória e tal, do que com os registros do mundo externo.

(ler matéria da revista piauí nova, a capa é um mergulhador, reportagem sobre coceira e orgãos fantasmas).

o foda que no fim das contas falar "isso tudo é coisa da sua cabeça" é tudo coisa da minha cabeça.

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tem um banco cuja propaganda é se gabar de possuir um gerente disponível até meia-noite.

eu só acho muito triste alguém precisar de um gerente de banco às 23:44...

domingo, 14 de março de 2010

esses dias vi aquele filme dos monstrinhos, onde vivem os monstros.

o filme é sobre porque as pessoas brigam ou porque elas fazem besteiras.

ele não explica porque as pessoas brigam ou fazem besteiras, porque quando as pessoas brigam ou fazem besteira as pessoas não estão sendo elas mesmas, logo não existe ninguém pra explicar isso.

mas é nesse anonimato das pessoas que saíram de si que mora a única chance do perdão. quer dizer, nem precisa haver perdão porque nunca há culpados.

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o erro de português mais hilário são as aspas mal empregadas. é a única forma onde a ironia consegue ser involuntária.

terça-feira, 9 de março de 2010

quando perguntaram pro sir edmundo hillary por que ele quis subir o monte everest, ele respondeu:

"porque tá lá".

domingo, 7 de março de 2010

esses dias eu tava lendo uma entrevista concedida por um jovem poeta e ele contava que fez análise durante nove anos, e que isso o mudou porque qualquer coisa que uma pessoa faça por nove anos, jogar pingue-pongue, aprender uma língua, a altera de certa forma, ele disse.

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aí eu lembrei de uma propaganda da ford cujo slogan era PRATIQUE, pratique qualquer coisa mas pratique, a propaganda falava.

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uma pessoa passa nove anos pensando e não avança, fica parada.

a análise deve ser uma espécie de prática do pensamento.

terça-feira, 2 de março de 2010

esses dias, viajando de barco num rio, mais de uma pessoa se perguntava me perguntando o que havia por trás do paredão inescrutável de árvores, era o rio amazonas. não tem nada ou tem muita coisa?

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algumas décadas atrás, um evento como o brasil estar sob uma ditadura, por exemplo, não chegava a afetar nem indiretamente a vida de muitas pessoas. meus pais por exemplo.

hoje em dia eu tenho que sentir pena até das vítimas do terremoto no haiti.

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o tédio não é a falta de coisa pra fazer.

quem mora na zona rural, por exemplo, não sente tédio. as coisas ali são relevantes, da chuva que cai à galinha que nasce.

não que eu acredite que o capiau seja um POETA coisa e tal.

só acho que ele tem uma dimensão exata dos acontecimentos que interessam.

o tédio é a fraude da suposta relevância daquilo que tá fora da nossa casa.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

esses dias fui ao mercado comprar um chocolate. na embalagem vinha uma DICA. A dica era: "vida a vida com leveza e prazer. faça dos pequenos acontecimentos momentos inexplicavelmente diferentes."

se o narrador de "partículas elementares", livro de michel houellebecq, comprasse esse chocolate, iria tirar muitas conclusões de nossa época. eu só acho uma gentileza da Nestlé.

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Partículas Elementares analisa o que ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial. A invasão da cultura de massa, a publicidade, a busca pelo prazer, a valorização da juventude e da beleza, narcisismo, egoísmo, etc, etc...isso aí que tá escrito em qualquer livro de alguém que fale de hoje em dia.

O legal desse livro é que é um romance, com historinha e personagens. O que eu não entendo é que eu não encaro minha época como ele descreve, eu não me reconheço assim, e as pessoas que eu convivo não são assim. O mundo são minhas relações, não posso fazer nada.

O autor parece esquecer que, antes do solipsismo desenfreado gerar egos inflados, ele gerou a possibilidade de cada um criar seu próprio mundo. E se hoje em dia se escuta falar tanto do narcisismo é porque com tanta gente falando tanta coisa, é impossível não se falar disso também.

Acho que o narrador é igual um maconheiro que, por só conviver com maconheiros, acha que TODO MUNDO fuma maconha...

No fim das contas o que o livro persegue é: o que é um indivíduo? neurônios e sinapses? um produto da História e de seu tempo? como saber o que os outros sentem se eu sou só eu? como suportar ser só eu? como me comunicar com os outros que não são eu?

Não concordo quando dizem que ele é irônico. Não entendi isso não. E tampouco pessimista. Olha isso:

"Espécie dolorosa e vil, pouco diferente do macaco, que carrega, porém, aspirações tão nobres. Espécie torturada, contraditória, individualista e briguenta, de um egoísmo sem limites, capaz, às vezes, de explosões inusitadas de violência, mas que nunca deixou de crer, entretanto, na bondade e no amor."

O livro é uma PEDRADA NA CABEÇA!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

esses dias li numa revista uma entrevista de um deputado que mordeu a orelha do outro. no final ele ressalta que é contra a violência.

quem é a favor da violência do preconceito da discriminação da guerra da tortura da intolerância?

só posso ser contra uma coisa que já sou. sou a favor daquilo que eu quero ser mas não sou. a humanidade é uma torcida do impossível.


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O que aprendi lendo "À Mão Esquerda" de Fausto Wolff.

São 500 páginas roçando este MONSTRINHO que nos habita, esse encosto irremediável, o irracional, cérebro, coração, pau/buceta e seus dilemas.

Parece que FW só o escreveu para dizer: "PORRA, eu sei que é burrice se declarar comunista no final do século XX, mas eu sou porra, o que eu posso fazer?"

Aprendi que não temos escolha essa vida, não adianta se contorcer, é tudo ilusão. Lembre-se, você não escolheu ter esta opinião.

Querer ser inteligente demais é criar justificativas para falta de caráter. Seja ético e burro pelo menos uma vez.

Aprendi que a sexualidade é a única área do conhecimento na qual o senso comum se faz ciência.

Lendo esse livro me senti mais próximo das pessoas do que se tivesse colocado os pés na rua. Vivi 100 anos em cinco dias.

A culpa não existe porque não somos responsáveis por nossas ações. Justamente por não sermos, devemos assumir que somos sim! Não tenho culpa, mas assumo ISSO que me fez fazer.

domingo, 20 de dezembro de 2009

"É engraçado como o bem-estar não depende do conforto, nem da tranquilidade ou de situações favoráveis, mas simples e unicamente da sensação de ir em frente." - Amyr Klink no meio do oceano atlântico dentro de um barco a remo.

Livrasso esse 100 dias entre o céu e o mar sobre a travessia África-Brasil num barco a remo do Amyr Klink.

Transforma a travessia num simulacro filtrado das melhores curvas da vida. O infortúnio e a desgraça também são legais. Interessante a intensa atividade onírica rebatendo a ausência de humanos. A transformação de possíveis inquietações metafísicas diante da imensão do mar em trabalho e rotina.

O animal mais real que ele viu foi um tubarão feito de nuvens...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 30

É, o narrador é o Fedro, que em grego significa Lobo. Clima de revelação no estilo filme-B-em-que-nada-é-o-que-parece-ser.

Qual a diferença entre dialética e retórica? Li rápido, não entendi. Só sei que a Qualidade antecede tudo. Entendo.


CAPÍTULO 31

Narrador/Fedro com medo que seu filho também enlouqueça. Momento dramalhão.


CAPÍTULO 32

Último parágrafo:

"Naturalmente, os problemas jamais deixarão de existir. A infelicidade e o infortúnio fatalmente ocorrerão em nossas vidas, mas agora sinto algo que antes não sentia, que não se localiza apenas na superfície das coisas, mas as permeia até a medula: nós vencemos. Agora tudo vai melhorar. A gente pode até garantir."


FIM FIM FIM

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 26

Chris tem outra caganeira. A origem da palavra entusiasmo é do grego cheio de theos, de Deus, ou de Qualidade.

Matar o tempo é a idéia mais negativa que existe. O tempo é nosso maior bem.

Desfaça as perguntas!


CAPÍTULO 27

Pesadelo em que o narrdor pressente a volta de Fedro. Sem lições...


CAPÍTULO 28

O segredo é revelado: o narrador e Fedro são a mesma pessoa. Ou não.

"A religião não foi inventada pelo homem. A religião inventou o homem."

O livro cutuca aquilo que todo pensamento chegou: Essa Coisa Maior Que A Gente. Da economia ao budismo, passando pela psicanálise, ele está lá. Como pode algo ser humano mas não ter sido criado pela gente?

Que resto é esse que se alastra pela História e fala da gente sem ser a gente?

Para além disso existe a loucura.

A loucura é o pensamento alienígena, é o que existe fora dos contornor dessa Coisa Maior Que A Gente, que também é uma ilusão, afinal, desde o ínício dos tempos houve a necessidade de criar narrativas seja para aplacar o absurdo ou dominar. O Poder é uma narrativa que se julga verdadeira.


CAPÍTULO 29

Fedro descobre Aristóteles e não gosta de seus sistemas arbitrários (ZzzZZZ).

De como Aristóteles fudeu o humano ao esmagar a Qualidade presente nos pré-socráticos.

Lembrei da fala de um personagem de um outro livro: Alguma verdade tem que se apoderar no discurso porque a vida humana é muito passageira e insignificante na terra pra conseguirmos vivermos coletivamente com mais de uma verdade.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 21

Na Qualidade se origina três áreas da cultura humana que ora se acham desvinculadas: a religião, as artes e as ciências.

Fedro quer indiferenciar tudo. Budismo e psicanálise também.


CAPÍTULO 22

A matemática está dentro ou fora da nossa cabeça?

"A geometria não é verdadeira; é vantajosa."

Fedro encontra em Poincaré (cientista e filósofo francês do século XIX) a união entre arte e ciência. Segundo Poincaré a ciência não é absolutamente verdadeira mas harmoniosa. Harmonia é ligada à beleza.

Cris, filho do narrador, ao andar por uma floresta, faz cocô na calça.


CAPÍTULO 23

A narração de um sonho: o narrador está morto dentro de um sarcófogo e Cris, o irmão caçula e sua mulher o observa. Ele diz a Cris para encontrar com ele no fundo do oceano. Termina o sonho em pé cercado pelas ruínas desertas de uma cidade solitária.


CAPÍTULO 24

Prosseguem rumo ao Pacífico...

Tem um termo - chautauca - que o narrador tem usado durante o livro. Chautauca eram tendas itinerantes que faziam palestras EUA a dentro séculos atrás.

Quando ele interrompe a narração da viagem e fala das idéias de Fedro, ele inicia uma chautauca.

Sobre parafusos empacados e método científico:

"Quando a lógica tradicional divide o mundo em sujeitos e objetos, está expulsando dele a Qualidade; mas quando a gente empaca, é Qualidade, não qualquer objeto ou sujeito, que nos indica o caminho."

Desempacar = ver as coisas de uma maneira diferente.


CAPÍTULO 25

"É a sofisticação que nos satura: essa feiúra tecnológica coberta por uma calda de falsificação romântica, na tentativa de se converter em beleza e produzir lucro para pessoas que, embora sejam sofisticadas, não sabem por onde começar, porque ninguém jamais lhes disse existe neste mundo uma coisa chamada Qualidade, que é genuína, não sofisticada. A Qualidade não pode ser colocada entre os sujeitos e os objetos, como os ouropéis numa árvore de Natal. A verdadeira Qualidade deve dar origem aos sujeitos e objetos, deve ser o cone que gera a árvore."

A condição necessária para sentir como a Qualidade abarca o racional e o romântico é a paz interior.

"O cuidado, no fundo, é isso, uma sensação de identificação com aquilo que se faz. Ao sentirmos essa identificação, poderemos enxergar também a face inversa do cuidado, a Qualidade propriamente dita."

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

UMA PAUSA

"Ele poderia ser ao mesmo tempo são e doido - interpôs Sr.Peals -. Nos dias que correm ninguém pode distinguir com certeza entre as duas coisas." - Saul Bellow, Agarre a Vida.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 15

"Que diabo é Qualidade?"

Boa pergunta. O desnivelamento do mundo se dá aí...


CAPÍTULO 16

Apologias à humanização do ensino. Críticas à mediocridade acadêmica comparada a formações de robôs. Fedro pregava a suspensão das notas, ele queria que os alunos desenvolvessem a criatividade, "obrigar os alunos a fazerem uma análise introspectitiva, a procurarem dentro de si a resposta certa." (ZzzZzz).

Obviamente não deu certo.


CAPÍTULO 17

"O alpinista egocêntrico é como um instrumento descalibrado. Está sempre atrasado ou adiantado na caminhada. Corre o risco de deixar de ver a beleza dos raios de sol passando atráves das copas da árvores. Ele prossegue mesmo cansado, a passos trôpegos. Descansa nas horas erradas. FIca olhando pra cima, para ver o que o aguarda, mesmo quando já sabe o que existe adiante, porque já olhou para lá há apenas um segundo. Vai muito depressa, ou muito devagar em relação às condições reais e, ao falar, fala sempre sobre outro lugar e outras coisas. Está aqui e, ao mesmo tempo, não está. Rejeita o presente, não se conforma com ele, quer prosseguir, mas, ao atingir o ponto desejado, fica tão insatisfeito quanto está agora, porque o lugar distante se transformou no aqui, no lugar presente. Aquilo que ele procura, aquilo que ele deseja, está ao redor dele, mas ele não aceita, justamente porque está ali pertinho."


CAPÍTULO 18

"Vê se pára com essas suas lindas perguntinhas de meia-tijela. Se você ficar perguntando o que é a coisa o tempo todo, nunca vai ter tempo para descobrir".

Alguém joga a real para Fedro...


CAPÍTULO 19

Já faz uns capítulos que o narrador, subindo uma montanha com o filho, conta as peripécias de Fedro em definir o que é Qualidade.

Definiu agora: "Qualidade é o que a gente gosta".

Ele quer saber agora se isso está no sujeito ou no objeto.

Ele quer uma ciência da subjetividade.

Alguém falou em psicanálise?

Parece concluir: "A Qualidade não estava na mente nem na matéria. Era uma terceira entidade, independente de uma e de outra".

Lembrei de uma frase que li em algum lugar: "A objetividade é a subjetividade dos homens".

"A Qualidade é o evento que torna possível a inter-relação sujeito-objeto." Chegou em Heidegger!!!

"O evento da Qualidade é a causa dos sujeitos e dos objetos, que, por puro engano, são considerados a causa da Qualidade."

domingo, 6 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 14

"é melhor a jornada do que chegada."

"O divórcio entre a arte e a tecnologia não é uma coisa natural. Mas ocorreu há tanto tempo que, para encontrar suas origens é preciso ser um arqueólogo. A montagem de churrasqueiras é, no fundo, um ramo perdido da escultura, tão separado de suas raízes por séculos de equívocos lógicos, que a simples associação entre ambos nos soa ridículas."

Não abandonar a racionalidade mas expandí-la, diz o narrador. No fundo é trocar os nomes que damos às coisas.

sábado, 5 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 13

"A gente nunca se dedica a um assunto em que se sinta perfeitamente seguro. Ninguém fica por aí a gritar feito doido que o sol vai nascer amanhã. Todos sabem que o sol vai nascer. As pessoas que se dedicam fanaticamente a credos políticos e religiosos, ou a outros tipos de dogmas ou objetivos, nunca estão inteiramente segura desses dogmas."

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 11

Fredo buscava A Verdade. Só podia ter ficado doido mesmo.

Aboletado num navio rumo à Coréia, Fredo descobre o que todo mundo que teorizou no século XX sacou: toda teoria é estética.

Gostei de uma frase aparentemente equivocada mas muito verdadeira: "É tão difícil na imaginação e tão fácil na prática."

Entrou na história da filosofia misturando com motocicletas.

"Do mesmo modo, mesmo que eu nunca tenha percebido com meus sentidos algo que possa ser chamado substância, estou satisfeito com a capacidade que os dados sensoriais têm de atingir os objetivos supostamente atribuídos à substância, e por saber que haverá uma continuidade da coincidência entre os dados sensoriais e a motociclita apriorística na minha mente."

O a priori do kant é a memória?

CAPÍTULO 12

O narrador diz que não desenvolve os personagens porque o livro não é romance/ficção. Como se a vida real não fosse construída em cima de narrações...

Fredo, após estudar filosofia oriental na Índia, teve uma vida normal com mulher e filhos no meio-oeste americano, antes de fugir para as montanhas.

De uma maneira geral, o livro carece de humor. Até quando ele fala de um professor que ria de coisas muito sérias e levava a sério coisas muito prosaicas, o narrador conta sem muito entusiasmo, afinal, ISSO AQUI É VIDA REAL.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 8

Comparação entre motocicleta e vida. A diferença entre ver o que as coisas são e o que significam. A segunda é criar conexões entre as coisas, a primeira é ver tudo isoladamente.

A vida é a história que a gente conta pra nós mesmos. Quanto mais conexões, mais riqueza, melhor a história.

Fedro parece ser um cara que ficou doido de tanto estudar.

As explicações sobre o funcionamento da moto começam a ficar enfadonhas. O autor me chamaria de romântico.

CAPÍTULO 9

Observações sobre a racionalidade. Sera que vai passar o livro inteiro exclamando: "ei seus hippies, a razão e a tecnologia são legais!"?

CAPÍTULO 10

Citando Einstein explica que a ciência é emocional. Tudo é subjetivo. OK. Tudo é relativo, você venceu.

O tema do livro é a falência da estrutura racional da vida civilizada. É o tema de um dos meus livros prediletos, O Jogo da Amarelinha.

Impossível não comparar.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 1

Pai e filho mais casal viajam de moto pelos EUA sem objetivo. O narrador é o pai. Um bom sinal: ele não coloca o sistema como vilão. Vai buscar algum valor no contemporâneo com o atemporal do ser humano.

Aproveito para lançar novo critério para diferenciar auto-ajuda e literatura.

literatura = conteúdo + estilo
auto-ajuda = puro conteúdo

CAPÍTULO 2

Reflexões sobre o trabalho. De como o ser humano se alienou das relacões entre coisas e pessoas tornando-se mecânico a apático. Promete desenvolver mais, sem pressa.

Pressa é coisa de quem faz o que não gosta.

CAPÍTULO 3

Acreditar em nada nos livra do risco de estarmos enganados. Acreditar é arriscar.

A ciência é o novo sobrenatural. A gravidade só existe dentro da nossa cabeça.

Surge um personagem misterioso, Fedro. Será um fantasma?

CAPÍTULO 4

Orientação sobre equipamentos para viagens de moto e uma amostra do humor jagodes norte-americano. Saber viver no presente é saber lidar com a falta. O presente, solto sem as amarrações do passado e a continuidade do futuro, parece absurdo.

CAPÍTULO 5

A diferença de olhar o que as coisas são e o que as coisas significam. A raiz do problema é o que existe de quimeras e verdades na relação subjetividade/mundo.

O filho (Cris) possui alguma doença mental que provoca dores estomacais. (???)

CAPÍTULO 6

Apresenta duas visões de mundo: (o narrador, além de descrever paisagens, discorre sobre o mundo de acordo com os ensinamentos de Fedro) romântico (sentimental) e clássica (racional). A raiz do problema (outra raiz!) é não conseguir conciliar esses lados antagônicos. Parece que o livro vai cuidar disso: como ser um poeta prático.

CAPÍTULO 7

"Agora é importante tentar aceitar as circunstâncias, sem lutar contra elas mentalmente."

Narrador conta que um dia, após uma bebedeira, acordou num hospital onde médicos lhe falaram: "Agora você tem uma nova personalidade".

Parece que o narrador herdou alguns dons de Fedro.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Recentemente adquiri num sebo o livro "ZEN e a arte da manutenção de motocicletas". Este livro sempre me perseguia. Pegava, olhava a capa - uma rosa desabrochando do interior de um capacete recheado com estruturas mecânicas - e não levava.

Resolvi dar uma chance. Imagino que foi febre entre a juventude dos anos 80, e que o grande número de exemplares por metro de sebo quadrado se deve ao abandono dos sonhos, a resignação e a maturidade.

Comecei a ler hoje e vou comentar todos os 32 capítulos!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Esses dias vi na banca a capa de época nova que falava do lançamento do VIAGRA FEMININO.

Momentos depois me atinei que a novidade era nada mais nada menos que o lançamento de uma da maiores LENDAS URBANAS da minha adolescência: O TESÃO DE VACA.

Diziam que existia uma poção mágica comprada em lojas de produtos agropecuários que, se pingada numa bebida de alguma mulher, ela era tomada por um furor sexual que a fazia querer dar para o primeiro que encontrasse.

Havia até um suposto caso trágico, de uma fêmea enlouquecida que não encontrou nenhum macho pela frente e morreu de hemorragia interna ao sentar num câmbio de automável.

Antes dos churrascos geral sempre se perguntava quem iria comprar. Evidentemente ninguém comprava, mas pelo menos servia para fomentar os devaneios onanísticos da galera.

A recusa da mulher em querer dar, ou melhor, estabelecer critérios para quem dar, é a causa de existência da civilização.

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Não sei por que existem esses livros "por que ler dante", "por que ler shakespeare", etc.

As duas melhores coisas da vida, a literatura e o sexo, são boas justamente por não terem qualquer utilidade.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

sobre SLMI

todo mundo tem noção do seu limite, ninguém sai por aí puxando assunto com estranhos ou expressando suas opinões sobre a vida. as crianças e os loucos não têm limites, o mundo é deles. os bêbados também tentam, bebem umas e o mundo fica leve leve, todo mundo é boa gente. já as pessoas normais ficam dentro de si a maior parte do tempo até se depararem com as

SITUAÇÕES LIBERTADORAS DE MONÓLOGOS INTERIORES

ontem nos últimos assentos do ônibus estava um desses solitários, pasta na mão, coluna ereta, cenho inexpressivo, corpo sacolejando. foi só o ônibus passar num buraco, geral ser jogada pro alto, e o indivíduo começar a falar que fora do brasil os ônibus não fazem nem barulho, que tudo é limpo, que na alemanha quem picha um muro é chicoteado em praça pública, que a cidade recebeu dinheiro dos gringos para limpar as ruas mas elas ficam cada vez mais sujas, etc etc.

um olhar de afeição e ele já parte pra vida pessoa, da família, dos amigos, dos sentimentos. pra quem ele falaria isso? a neurose é, antes de tudo, falta de comunicação. uma sociedade doente é uma sociedade com a comunicação emperrada. só mesmo no século XX poderia surgir essa estranha profissão que recebe pra escutar pessoas.

a psicologia social manda mal. ela se esburaca formalizando obviedades entre o social e o subjetivo. deveria é desenvolver métodos audaciosos para a promoção de SLMI.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Acabei de ler o livro "A tapas e pontapés" do Diogo Mainardi. Comprei por cinco reais. A capa diz "crônicas", mas pra mim é literatura.

Tem hora que incomoda. Parece um tio bêbado chegando numa ceia de Natal e revelando os podres que todos sabem mas mascaram.

A diferença é que Mainardi não é bêbado nem espalhafatoso. É sóbrio. É mais transgressor que qualquer revolucionário que o chama de reacionário.

Li um pequeno romance dele um tempo atrás, de uma vez só, dentro de uma livraria. Não gostei porque achei sem graça, não entendi porque precisava de alegorias para falar da vacuidade da vida ou da estupidez humana.

Ele fala que nunca mais vai fazer literatura, e que tem apenas um conselho para os jovens escritores: não escrevam.

Em suas crônicas Mainardi se realiza literariamente. Falar como as coisas são parece ficção.

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Meus amigos falavam que eu nunca ia trabalhar, ia viver de renda. Quando uma pessoa não gosta de trabalhar é chamada de "boa vida", o que só revela que trabalhar é um saco.

Precisar que alguém nos diga o que somos é um problema psicológico. É triste encontrar pessoas que precisam trabalhar para ser alguém na vida. As pessoas envelhecem burras porque ousam em querer ser alguém.

Já pensei em trabalhar, ser alguém na vida, ter um nome embaixo do meu nome se por acaso me entrevistassem na rua. Já até pensei se minha inapetência pra vida prática (vagabundagem) ou minha incerteza em escolher qual faculdade seguir era conseqüência de nunca ter entendido o que meus pais faziam.

Agora eu quero trabalhar, mas por outros motivos.

Quero trabalhar pra me distratir, pra oficializar minha zombaria, pra ganhar tempo, pra apenas fazer as coisas bem feitas e falar menos, pra finalmente ser ninguém.

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Mainardi é um anarquista. Ele defende o fim do Estado. Propõe a privatização de tudo: ensino, segurança, saúde, transporte. Eu concordo.

Se o Brasil tem a maior carga tributário do mundo e nenhum desses setores funciona, alguma coisa está errada. Invés de pagarmos impostos vamos consumir direto da fonte.

Tem um miolo filosófico nisso tudo que eu não entendo, sou um ignorante no assunto. O Estado realiza uma operação sobrenatural: legitima que pedaços de papel possam ser trocados por bens e serviços, estabelece fronteiras e impõe um número para cada pessoa.

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O fim do Estado só será possível quando as pessoas souberem quem elas são, o que querem, do que gostam e de como gerir suas próprias vidas.

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O Estado é uma idéia ultrapassada, da época que em que a pessoa não existia muito bem, esse lance de invidualidade é recente. A pessoa não sabia o que era melhor pra ela, precisava de algúem para orientar. Isso acabou, saímos da infância. Ainda hoje o Estado finge que ensina e fingimos que aprendemos.

Fazendo jus ao nome do blog (que é uma piada interna comigo mesmo), posso dizer que o Estado é consequência de uma aglomeração de neuróticos que nunca se libertou do Outro.

domingo, 18 de outubro de 2009

Chamar alguém de sensível é como chamar um bicho-preguiça de preguiçoso. Se não for pra ser sensível era melhor ter nascido como um tamanduá. O que você tá fazendo nesse planeta?
Sonhei que visitei uma granja onde um ancião construiu uma suposta nave espacial para ir à Lua.

O velho montou um sotão no galinheiro onde joga ovos que ao quebrarem produzem um combustível poderoso. Alguns ovos não quebram e geram galinhas assassinas que volta e meia descem para matar os visitantes e outros galinácios.

O cuidados dos filhos e netos em manter a ilusão da invenção é comovente. Diariamente ele visita o galinheiro para arremessar ovos no sotão onde galinhas diabólicas espiam o chão dentro da penumbra.

Isso é serio, se eu não tivesse sonhado teria inventado.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

"Fui de ônibus pra São Paulo. Atrás da minha poltrona, um bebê de 4 meses não parava de chorar. Olhei pra Solange e falei: que azar! O pai do bebê se afastou (foi pra última poltrona) e a mãe tentava distrair a criança. De tanto a mãe falar, cantarolar, a criança parou de chorar. Pensei comigo: a formação começa aí - com a voz da mãe nos primeiros meses de existência. E de repente, me dei de frente com uma idéia ainda maior: se a primeira educadora é uma mulher, isso significa que a humanidade, em sua maior parte, seja homem seja mulher, desenvolve um lado feminino acentuado. Depois o machismo recalca isso. Mas não há como fugir dessa situação: é a mãe a primeira educadora. Somos femininos porque desde a mais tenra infância temos a voz da mãe, a visão da mãe. A atitude do pai, indo pra última poltrona, me fez pensar nessa situação paradoxal: quanto mais machista é uma sociedade, mais feminina ela é." - Rogério Skylab

terça-feira, 29 de setembro de 2009

ler revista veja ou época é o mesmo que passear num shopping. por pior que seja o conteúdo, sempre me dá uma sensação de pertencer a alguma coisa. sei lá, me dá uma impressão que todas as pessoas são legais e tá tudo em ordem. acho isso bom.

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o motivo que leva uma pessoa a procurar uma terapia é o mesmo que a leva a sofrer: se dar muita importância.

o motivo que a leva não precisar mais de terapia também vai coincidir com o motivo que a faz ter uma perspectiva de uma vida com menos sofrimento.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

essa noite sonhei que assistia uma reportagem do jornal nacional, com infográficos e tudo mais, sobre recente descoberta da comunidade científica. descobriram que a água, H2O, é responsável pela cura de todos os males físicos e mentais. (close de uma inundação celular, mitocôndrias feito bóias, complexo de golgi surfando na moral, ribossomos e lisossomos pipocando na praia, retículo endoplasmático liso tornando-se rugoso.)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

qualquer tentativa de descobrir diferenças genéticas entre as supostas raças humanas se torna ridícula diante do óbvio: as pessoas são mais claras ou mais escuras porque desde sempre houve regiões no planeta com maior ou menor incidência de raios solares.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

essa noite sonhei que estava entrando no mar, debaixo de uma tempestade, com uma espécie de trator gigante. até mais, um abraço.

domingo, 13 de setembro de 2009

"O pior momento é quando dizem lá-vou-eu e você sabe que vão te achar - porque nenhum esconderijo é bom o bastante. Eu apertava os olhos e pegava soluço: sempre me encontravam. Às vezes eu fingia estar em outro lugar do mundo onde seria impossível me pegarem. Ali, no corredor da plantação, o sol torrava meu braço, eu não podia me mover, o Chibo tinha sumido e eu não era mais café-com-leite. Não sei o que aconteceu, mas parece que apoiei a cabeça nos meus joelhos e acabei dormindo. Ou passei tanto tempo com os olhos fechados que nem sei. Pensava em lagartixas quando acordei, zonzo, e senti o braço esquerdo grelhado."

Eu tava sentado numa pracinha quando de repente percebi que nos bancos ao redor estavam monges e monjas descalços com aquele manto marrom escuro e a cordinha (qual o nome disso? cinto de pano monástico?) balançando na cintura. Do lado um começou a recitar padre antônio vieira, alguma coisa sobre coisas visíveis e invísiveis, e um deles começou a dedilhar o violão e a rezar. Um deles tomou a palavra e disse que iria abandonar a congregação, que não suportava mais o caminho estreito, o caminho dos espinhos, da dor e do sofrimento. o céu não existe meu caro, toda metafísica é uma reunião de desejos adiados...Volta e meia eles choravam, se abraçavam, e faziam uma piada, e ato contínuo: "essa foi pra descontrair hein galera". esse comentário é a síntese do século XX: a consciência amortecida pela piada dobrada em si mesma. O que é rezar? que desculpa é essa pra falar sozinho sem parecer louco? É um desamparo semelhante de quando a gente é pequeno e o mundo é muito muito grande, grande e incontrolável e a gente é pequenininho e acreditamos em fantasmas e estamos formando a noção das coisas que acontecem e das coisas que não acontecem. Falar sozinho é querer ser ouvido pelo passado. A religião é nossa região onde o conforto (vinhetas da TV, iluminação das avenidas, estádios de futebol lotados, almoços de domingo, sexta-feira depois do expediente, concertos de rock, sexólogas desenvoltas, informes publicitários) não chega. A sanidade de uma civilização pode ser medida em como ela ilumina nosso desamparo. A psicanálise é uma religião não porque os psicanalistas e suas instituições se parecem com igrejas (hierarquias, dogmas, ritos), mas porque ela tenta capturar o desamparo sem roupas, quer dizer, ela quer conhecer as regras do jogo mas logo aprende que a vitória e a derrota não exista lá fora , é tudo aqui dentro mesmo, batendo e voltando e tem um conceito que é como viver com lucidez sem sem cínico, esqueci o nome, mas é uma espécie de distração focada, uma curiosidade em alerta, o fim de qualquer hierarquia dos discuros, a indiferenciação, o Caos do Porto, acreditar no tempo e no vazio das palavras, e inevitavelmente se tornar um poeta. Uma monja bagunça meu cabelo e pergunta se tô escrevendo um livro. Respondo que escrever um livro é muito escrever-um-livro, que tô apenas me divertindo, e que se fosse escrever um livro seria de histórias que nunca virariam livros.

sábado, 12 de setembro de 2009

me pergunto por que TODA reportagem sobre qualquer feira de livros é mostrar crianças maravilhadas com livros que mais parecem brinquedos e mamães confirmando que a leitura é um hábito muito importante.

deve ser porque esse negócio de ler seja coisa de criança mesmo.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

esses dias um cara que eu respeito disse a mesma coisa que outro cara que eu respeito disse. quando isso acontece geralmente é porque estou diante de alguma verdade. FELICIDADE É POTENCIALIZAÇÃO.

é ter o poder para realizar as coisas.

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chamar alguém de arrogante é uma arrogância. ser arrogante é ser. chamar alguém de egoista é um egoísmo, geralmente é porque a pessoa não fez aquilo que você acha que ela deveria ter feito. o egoísmo na verdade é só uma ignorância, a incapacidade de sair de si mesmo e brincar com a realidade.

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esses dias passei em frente de uma pista de skate que tinha a seguinte pichação:

"vivemos numa realidade virtualizada ou numa virtualidade real? ou os dois? ou nenhum dos dois?"

realidade e virtualidade são a mesma coisa. não existe um Outro Lado. só existe isso aqui mesmo. ficar se perguntando se isso aqui é real ou virtual é uma moléstia neurótica transformada em filosofia.

nossa língua nos brinda com um verbo muito interessante: HAVER.

sábado, 5 de setembro de 2009

quatro dias numa metrópole é o suficiente para entender porque o mundo não funciona: tem gente demais. cada ser humano é uma espécie de acelerador do tempo. quanto mais pessoas mais acontecimentos, mais rápida é a sensação da passagem do tempo.

o "não fazer nada" é fazer a coisa mais antiga que fazemos: fazer nada. a função da cultura é distrair. distrair não dos maléficos planos do capitalismo selvagem, mas desse território vazio do tempo.

ansiedade, stress, síndrome do pânico, paranóia, fobias, doenças psicossomáticas. o século passado tornou a doença um charme, uma sofisticação. a psicanálise contribuiu para isso. a doença é apenas um ressentimento pelo sofrimento. sofrer de verdade é não querer sofrer.

ser normal, banal, acreditar, não julgar, não achar nada, pensar na morte todos os dias, se tornar um ânonimo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

hoje no ônibus um camarada tava contando pruma outra pessoa uns três episódios da vida dele pra no final justificar: TUDO NESSE MUNDO GIRA EM TORNO DO DINHEIRO.

eu tenho ouvido outras variáveis aí: que o mundo gira em torno do sexo, ou do poder, ou da ambição, ou do amor, esses últimos se subdivindo na categoria de poetas ou de pastores evangélicos.

aí o cara duvida de tudo isso, vai desconstruir as camadas do mundo, vai querer saber o que move as pessoas, porque na verdade ele quer saber o que move ele mesmo, o que ele quer da vida, e não quer se sentir sozinho, quer saber o que as outras pessoas buscam também.

vai procurar uma explicação religiosa, econômica, sociológica, evolucionista, psicológica, mas não vai se contentar com nada. ele não quer teorias. ele percebe que tudo só é um ponto de vista diferente sobre uma mesma coisa.

fica um pouco estarrecido mas no final aceita a leveza redentora: o mundo gira em torno de nada. quer dizer, cada um escolhe em torno de que seu mundo vai girar.

isso confere ao investigador da realidade uma incômoda sensação de superioridade, como se ele descobrisse que o jogo que todo mundo leva a sério fosse uma brincadeira de mal-gosto.

ultrapassada a ilusória sensação de superioridade, só resta a compaixão por descobrir que ele próprio é vítima da brincadeira de mal-gosto.

essa brincadeira de mal-gosto, que é o fato da gente não ter nenhum controle sobre mo mundo, que no fim das contas é o fato da gente viver e ter que morrer, precisa ser esquecida a todo momento.

tentar esquecer isso é adiar nossos sonhos. adiar os sonhos nos dá uma sensação de eternidade, como se sua vida verdadeira, seus devaneios, seus sonhos, fossem ser vividos quando você morresse.

não que as pessoas vivam vidas falsas, não é isso. é que é tudo muito rápido pra gente fazer tudo que a gente quer. a gente faz nossas coisinhas no dia a dia, mas isso não é suficiente, você sabe disso né.

o negócio talvez seja enxergar que essa brincadeira de mal-gosto na verdade não tem gosto nenhum. a vida e o tempo não tem nada a ver com a gente. a indiferença do tecido da vida, essa coisa que a gente se apega, sacudindo, querendo encontrar alguma resposta, não tem resposta nenhuma pra dar.

essas respostas são só umas historinhas que a gente conta pra gente mesmo.

talvez isso seja a única coisa que nós temos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

"...mas estou morrendo. com certeza, com certeza. estou morrendo. Finalmente."

acabei de ler um livro curioso: UMA COMOVENTE OBRA DE ESPANTOSO TALENTO, autor dave eggers. ele é recheado com todos esses tags que me chamam a atenção: tédio, ironia, anos 90, sentido da vida, solipsismo, angústia, metalinguagem, superação da ironia.

as primeiras cinquenta páginas é um prefácio em que o autor explica que o livro é autobiográfico e que ele está consciente de todos os truques utilizados no livro nos fazendo inclusive o favor de listá-los.

a todo momento ele tá querendo dizer que tá compensando sua falta de talento sendo sincero, e que só por fazer isso o livro já tem algum valor.

ser sincero realmente virou uma transgressão. acho isso bom.

ele poderia tá escrevendo um ROMANCE SOBRE UMA GERAÇÃO, mas preferiu escrever sobre a vida dele. tá ok, dá no mesmo.

ser artista virou falar em como é ser você mesmo.

em menos de um mês dave eggers perde seu pai e sua mãe e passa a VIVER aquilo que já foi devaneio de toda criança/adolescente normal: o que fazer se meus pais morressem AGORA?

o livro não é tão bom assim não. no prefácio ele explica isso, que a partir da página 272 ele fica meio fraco, e que a gente poderia parar por ali mesmo.

mas eu quero chegar no seguinte ponto, que pra mim é o ponto central do livro:


SUA VIDA É DIVERTIDA OU SUA VIDA É CHATA?


essa é a única pergunta importante desse século.

o afunilamento decorrente da destruição do céu e do inferno.

(inclusive a invenção do céu e do inferno foi devido a falta de entretenimento de nossos antepassados. acreditar no capeta dava emoção.)

não tem como fugir: fomos mimados pelo entretenimento, nunca foi tão fácil se entediar.

isso é contraditório. tanta coisa oferecida e tanta gente insatisfeita. teses de centenas de páginas são elaboradas sobre isso.

mas o livro tem uma teoria legal.

segundo ele tem dois tipos de pessoas no mundo: as pessoas chatas e as pessoas auto-obcecadas.

quer dizer, o livro poderia dizer pessoas chatas X pessoas legais, mas o caso é que todas as pessoas legais são auto-obcecadas.

o que é uma maneira sincera e direta de falar das pessoas que são obcecadas pela vida.

só quem perde algum tempo dentro de si é capaz de descobrir o que quer.

e descobre que no fim das contas o sentido da vida é a diversão.

faça o que quiser com essa palavra aí.

as pessoas chatas reclamam da vida.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

boa tarde. hoje eu aprendi a etimologia da palavra "piriguete". é uma junção de piranha com gueguete, que no norte do brasil significa moça, menina, garota.

sei lá, só achei que eu devia contar isso.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

esses dias comecei a ler uma reportagem na superinteressante que dizia que a infância irá acabar. li o primeiro parágrafo, olhei as gravuras, li uns quadrinhos explicativos também. nem sei porque não prossegui...

mas pelo que eu entendi a infância vai acabar porque o acesso as informações ficará tão fácil que as crianças vão se auto-educar, não precisarão mais de família ou escola para aprenderem as coisas. se transformarão em adultos pequenos, prontos para o que der e vier, imersos desde cedo na bobeira do mundo.

NUNCA LI TANTA MERDA NA VIDA.

desde quando as crianças querem aprender alguma coisa?

tudo o que foi aprendido na infância foi introjetado por uma questão de sobrevivência e necessidade. necessidade de comida, de bunda limpa, de amor.

NÃO, o ser humano não nasceu pra ser feliz nem triste, nem coisa alguma.

isso tudo foi inventado pela gente mesmo.

deve ser porque é extremamente chato ficar sem fazer nada.

sábado, 22 de agosto de 2009

um exemplo que justifique a varredura cognitiva do conceito de verdade e mentira da nossa mente é o fato de que o DETECTOR DE MENTIRAS, a invenção mais falcatrua da história, nunca ter ganho uma versão de bolso.
não se engane: "o sentido da vida é o sentido da vida."

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

esses dias uma mulher se queixava comigo que os planos da maioria das mulheres da faixa etária entre 25 e 30 anos que residem em sua cidade natal são frívolos:

malhar-para-ficar-gostosona-e-arrumar-um-marido-rico.

eu disse que não é bem assim, que elas não pensam isso dessa forma, que isso tudo é automático, não consciente. ninguém fica pensando nisso.

tô contando isso pra dizer que tudo aquilo que é automático, tudo aquilo que é puro comportamento, incorporado na vida sem nenhuma reflexão, costuma parecer um tanto fraudolento quando é atingido pelas luzes das narração.

e tô dizendo isso pra ressaltar do papel sagrado que as narrativas (cinema, literatura...) possuem hoje em dia de dignificar o prosaico.

diante do declínio de qualquer manutenção coletiva do sentido-da-vida só aquilo que atinge o íntimo da individualidade de maneira polissêmica pode enriquecer a vida e as relações entre as pessoas.

não sei se fui muito claro né?

tô querendo dizer que se existe uma função na literatura além do mero entrenimento é fornecer aberturas na narração que todo mundo faz da vida o tempo todo.

e que o sofrimento é narrar o mundo com frases categóricas de sentido absoluto.

a alegria deve ser a surpresa da cascata de possibilidades de cada situação.

domingo, 16 de agosto de 2009

jorge luis borges disse numa entrevista que é um erro julgar se uma ação é ética ou não pelas consequências.

uma ação só pode ser considerada ética ou não pelo seu príncipio, o que a causa.

a consequência de uma ação é infinita, ela se perde. toda e cada ação é infinitamente boa e infinitamente má.

se existe um problema na ética hoje em dia é que as pessoas não conseguem muito bem se apropriar do príncipio de suas ações.

há um descompasso entre o mundo saturado e o ego sedento por realizações.

estamos carentes de algo que componha os princípios.

como ninguém acredita mais em nada, resta o cinismo.

e o cinismo só empurra o julgamento das atitudes para a consequência.

o apego a essa valor é o maior responsável pelo mimimi generalizado das relações humanas.

é achar que o mundo sempre encosta em você.

que toda consequência dos atos das pessoas a sua volta te atinge.

a afirmação do nosso egoísmo deve ser feita não para que afundemos nessa nossa condição, mas que reconhecemos isso que acontece o tempo todo e que ninguém percebe: eu estou confinado em ser um que não é você.

a partir daí cada um deve conhecer o que o motiva, tentar ser transparente em suas comunicações, para então efetivamente realizar uma troca com outra caixinha humana que está confinada em ser um que não é você.

mas pelo visto há uma preferência pelo egoísmo das antiga, esse que equivocadamente cisma que as coisas que acontecem tem alguma coisa a ver com sua própria caixinha.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

QUATRO SURPRESAS AGRADÁVEIS

- achar pizza esquecida na geladeira
- achar dinheiro em bolso de calça
- passar três dias sem pensar em bater punheta e no quarto dia encontrar sua musa da adolescência na rua
- ter um sonho com uma história enorme, acordar no meio da noite achando que já é de manhã, olhar pro relógio e ver que ainda nem passou da meia noite.

QUATRO PRODUTOS QUE QUANTO MAIS BARATO MELHOR É A QUALIDADE

- ovo de páscoa (aqueles com gosto de parafina)
- pipoca de microondas (parece que ficam mais oleosas)
- guaraná
- ketchup (são mais adocicados)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

esses dias num documentário sobre o funk carioca (FAVELA BLAST) de repente aparece um MC e diz:

- neguim se queiSCHA que a favela só fala de arma, treta, bunda...neguim queria que a gente falasse sobre o que? SOBRE A ALVORADA? a gente fala da nossa REALIDADE POXA, nossa poesia é essa entendeu, porque nossa realidade é essa.

pessoal monomaníaco esse. se não bastasse VIVER isso tudo, eles fazem questão de ESCREVER isso tudo???

MONTAGEM DA ALVORADA JÁ!!!

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esses dias vi um documentário sobre E.M CIORAN. Nunca li nada dele, mas quando vi na resenha que ele era O MAIS NIILISTA DOS FILÓSOFOS e que o documentário "procura resgatar sua infância na TRANSILVANIA", achei que poderia ser interessante.

ele se considera o mais lúcido dos homens, viveu todo o tempo achando que todos os seres humanos eram ingênuos, menos ele. maldita solidão.

com sete anos o mequetrefe ficou amigo do COVEIRO da pequena cidade da ROMÊNIA, e toda semana o coveiro gente boa o agraciava com um CRÂNIO que ele utilizava para jogar bola SOZINHO.

aos 15 começou sua obsessão pela morte e a sofrer de insônia.

ele diz algo interessante sobre o sono: uma noite bem dormida e o acordar no dia seguinte é a renovação da vida, é uma vida nova. o insone fica aprisionado num constante estado de vigilância consciente, não conseguindo compartilhar uma renovação que se instala na vida de todos que dormem.

em determinado momento ele diz que toda sua obra é TERAPÊUTICA. que ele a produziu pra se livrar da obsessão de pensar na morte em cada segundo de sua vida.

ele diz que não se curou, apenas ficou cansado.

perguntam pra ele se sua obra não é uma obra de um adolescente curioso que leu demais e que nunca superou o espanto de estar vivo.

domingo, 9 de agosto de 2009

FATO

"Não havia em Sebastião nada dessa atitude preconcebida de mandar às favas os preconceitos sociais. Bem sabia ele que alardear desdém por um código moral não era senão uma espécie de presunção contrabandeada e de preconceito virado às avessas."

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

mas será mesmo que o mundo é estruturado pela linguagem? será que a linguagem antecede a formulação de toda imagem?

Contudo, apesar de possuirem um público semelhante, Joyce e Nabokov são na verdade dois escritores muito diferentes no estilo e na sua concepção da literatura. Tais diferenças se tornam evidentes na crítica nabokoviana a Joyce. Para Nabokov, Joyce "exagera o lado verbal do pensamento"; ele lembra que as pessoas "não pensam sempre por meio de palavras, mas também por imagens, enquanto o fluxo de consciência pressupõe um jorro de palavras que podem ser anotadas."

Joyce era um músico frustrado. seus livros são músicas.

Nabokov era um pintor frustrado. seus livros são pinturas.

engraçado a literatura, a mais rudimentar das artes, ser capaz de concentrar em papel e tinta um simulacro daquilo que se chama Vida.

a literatura sempre vai ter como tema a frustração. não a frustração do autor, mas a consciência da banalidade de tudo que é humano em relação a magnitude do tempo e do universo.

(se você tiver lendo isso depois do almoço, depois de ter suado andando pelas ruas, depois de ter ouvido o boa noite do jornal nacional, depois que um carro passou anunciando o circo que chegou na cidade, depois de qualquer momento em que o ruído da humanidade entrou pelas frestas do seu quarto, etc etc, não vai ter o menor efeito. mas eu tenho certeza sim, que pelo menos uma vez na sua vida, você também teve a consciência da banalidade de tudo que é humano em relação a magnitude do tempo e do universo.)


se não existisse essa frustração bastaria viver. mas só quem sabe viver são os animais.

a gente faz drama, arruma boas e más confusões, e escreve livros.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

percebo que não sou psicanalista quando um deles me fala que o problema do alcoolatra é com o "significante alcoolismo".

a primeira coisa que eles deviam ensinar nesses cursos de formação em psicanálise não é nada de psicanálise. é de como o mundo se estrutura através da linguagem.

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atenção jovens, a única pessoa que tem o mérito de ganhar a alcunha de pseudo-intelectual no brasil se chama José Sarney.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

"Desconheço que se alguém já notou até hoje que uma das principais características da vida é a discrição. Se uma película de pele não nos envolver, morreremos. O homem só existe até o ponto em que é separado do meio ambiente. O crânio é um capacete de viajante espacial. Deve-se ficar no interior ou perecer. Morte é desnudamento, morte é comunhão. Pode ser maravilhoso fundir-se com a paisagem mas esse ato significa o fim de nosso delicado eu". (NABOKOV, in PNIN, p.17)

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ler nabokov (ainda estou no meu terceiro mas coletando tudo que encontro pela frente)deve ser o ápice do prazer praquelas pessoas que gostam de ler histórias imaginando os personagens, os lugares, as feições, os diálogos.

acho que é exatamente o contrário de ler guimarães rosa. enquanto este fecha numa abstração intuitiva, onde o que faz sentido não são imagens, mas sons, aquele derrama nas palavras um punhado de tintas para pintarmos cenários tão reais quanto nossas lembranças.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

frequentemente tem alguém falando, com ares de reprovação, que a adolescência hoje em dia se prolonga até os 30 anos.

(ontem foi aquele oriental caduco, içami tiba, inimigo meu.)

todos se esquecem que da mesma forma que a adolescência aumentou, aumentou também a cronologia da vida adulta e da velhice.

(alguns maquinam que o objetivo do capitalismo feioso é tornar a vida uma adolescência eterna, mas não quero comentar isso agora.)

eu só quero meu direito de ser adolescente até os 30 e de ser chamado de idoso apenas depois dos 85. nossas mulheres ficarão enxutas até os 70.

alguns falam que as pessoas ficarão mais frívolas, fúteis ou vaidosas.

não tem como reclamar de nada hoje em dia. tem gente e coisas de tudo quanto é tipo. vá procurar sua turma.

acho que as pessoas se casam e começam a trabalhar tão cedo por impaciência de achar que a vida é curta.

terça-feira, 28 de julho de 2009

CARTA ABERTA À NAÇÃO UFO






Caros amigos alienígenas,

Como dá pra perceber, a Terra foi devastada. Vocês não encontrarão nem vida nem vestígios. O negócio foi feio mesmo. Entretanto tenho confiança que através de algum sinal vocês encontrem a INTERNET.

Dentro dela vocês encontrarão toda nossa história. Cuidado para não clicarem no link “SANDY DANDO O CÚ”.

Se chegaram até aqui, se contentem com minhas abobrinhas e uma pequena notícia veiculada num jornal brasileiro, meu país de origem, no dia 28 de julho de 2009.

É minha tentativa de explicar o início do fim.

A INTERNET deve saciá-los por alguns anos-luz.

Abraços, Marcelo

segunda-feira, 27 de julho de 2009

esses dias assisti a um documentário sobre uma menina que viveu trancafiada até os doze anos.

logo quando descoberta, atraiu a atenção de toda a comunidade científica ávida por resolver os enigmas da linguagem, da socialização e daquilo que nos faz humanos.

não chegaram a nenhuma conclusão. todos ficaram visivelmente alterados com a presença da menina, todos estabeleceram algum tipo de vínculo emocional com aquele ser, impossibilitando um trabalho mais sério.

o detalhe mais revelador é como ela não tinha uma percepção corporal muito clara, o que só reforça a teoria que nós não temos um corpo igual qualquer mamífero tem.

o nosso corpo está subordinado a linguagem, e toda tentativa de civilização foi uma forma de nos livrarmos de um resto biológico sem simbolização.

a dicotomia CORPO x MENTE não existe. é só "MENTE" e mais uma coisa que só existe pelo avesso.

domingo, 26 de julho de 2009

no GLOBO de hoje o saramago disse numa entrevista que o twitter é só uma manifestação da tendência do monossílabo como forma de comunicação.

segundo ele, de degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.

eu posso pensar que a tendência da inteligência humana é reduzir cada vez mais a linguagem, se tornar cada vez mais prática, mais eficiente, dizer tudo com menos palavras.

ou posso achar que a tendência da inteligência humana seria aumentar cada vez mais o vocabulário, ter mais chance de dizer as mesmas coisas de sempre das mais variadas maneiras possíveis.

quero achar que quem pensa da primeira forma tende a ser uma pessoa cínica, metódica e com uma misteriosa atração pelo controle e pelo poder.
A FOTO MAIS DESESPERADORA DOS ÚLTIMOS TEMPOS.

sábado, 25 de julho de 2009

quando os jovens da cidade em que moro saem pra se divertir no fim de semana, muitos deles se queixam que por aqui, uma cidade pequena coisa e tal, as pessoas se importam muito com o dinheiro, a aparência, e a imagem, como se isso fosse uma coisa muito negativa.

vocês não acham que quem pensa isso não está se importando muito com isso tudo?

pra que reclamar disso?

pra que insistir em criar um pano de fundo onde as ações se desenrolam?

não se passa nada na cabeça dos outros.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

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SUCO DE NADA COM MEIA E CHINELO PRODUÇÕES APRESENTA:



MEUS DEUS, PEIXES MORTOS!!!



APÊNDICE A



- publicada no jornal O Globo no dia 21/07/2009

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terça-feira, 14 de julho de 2009

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suco de nada com meia e chinelo produções apresenta:


MEUS DEUS! PEIXES MORTOS!



Notícias veiculadas no jornal O Globo em algum dia de junho de 2009.


Não sei explicar porque o peixe resolveu procurar canos dos aquários para cair na tubulação do esgoto e caçar crianças para comer.

Mas vou contar...

Início da noite de sábado, uma criança, nove anos, se dirige ao banheiro, senta na privada, suas perninhas frágeis balançam em cima do chão, o peixe se espreme pelos canos, peixe-anfíbio, se contorcendo na subida, suas escamas são braços, suas brânquias são cordas. Um ruído não assusta a criança, ela gosta de privadas.

Mal sente a primeira mordida que destroça seu glúteo direito. Seu corpo é puxado e sugado para a tubulação, peixe-cobra, seus gritos não vão acordar seus pais. Em poucos minutos seus ossinhos já estão mastigados. Quem chegasse no banheiro agora ia ver duas sandalinhas emparelhadas em frente a privada cuja água se chama sangue.

Essa cena com as devidas variações de vítimas, azulejos, cisternas, cores e consistências de glúteos infantis, se repetiu centenas de vezes. Um comitê foi formado, boatos não lançavam nenhuma luz sobre os casos. Privadas se transformaram em buracos negros, o que levou todas os pais a comprarem caixas de areia dos gatos para seus rebentos urinarem e evacuarem.

Enquanto isso o peixe seguia faminto pelos esgotos, controlando a aproximação de um glúteo, analisando a chegada da bunda como um astrônomo observa um eclipse solar, bundas eclipsandoo as luzes bruxuleantes dos banheiros cariocas.

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Ninguém sabe por que Emílio resolveu matar peixes. Um dia chegando em casa após uma viagem de sete dias, ele encontrou cinco peixes, todos os seus cinco peixes se debatendo no chão em frente ao aquário. Quando viu aqueles cinco pedacinhos de carne se debatendo dando cambalhotas em volta de poças marrons de suco de ração, Emílio decidiu se transformar num assassino de peixes.

Durante a noite ele pensou na fragilidade dessas criaturas, de como tirar peixes da água é como soltar pessoas numa fossa abissal. Peixes morrem afogados de ar.

Numa madrugada de sábado para domingo, Emílio invade o Parque Lage, para em frente ao vetusto aquário onde no centro se ergue uma Minerva com seu Vaso. As fontes estão desligadas. A lua ilumina a movimentação de cores no fundo do aquário. Os peixes se agitam, como se presentisse a presença daquele que há meses vem invadindo pet-shops, residências, exposições, parques, zoológicos, desligando bombas, ceifando aquários com redes só para observar atentamente os peixes se afogarem de ar.

Ele invade a casa de máquinas, desliga a bomba, senta na mureta extasiado, e aguarda o oxigênio esfarrecer, primeiro eles ficam inquietos, balançam de um lado para o outro, depois os movimentos vão cessando, ou melhor, a dança frenética é substituída pela invisível corrente que vagarosamente empurram os cadávares sem direção num macabro balé aquático.

Uma tilápia branca, única dentre laranjas e marrons, chama a atenção de Emílio. Quando ela chega à superfície Emílio se aproxima e observa o peixe. Sua brancura é diáfana, e por trás de suas escamas que parecem uma luva cirúrgica esgarçada, Emílio não enxerga apenas nervuras e orgãos.

Tem um braço dentro do peixe que sob a luz da lanterna que Emílio dirige à borda, onde a tilápia branca dança, se revela um minúsculo braço humano, como se o absurdo da situação não fosse o braço em si, mas um braço de criança devolvido à condição de feto.

Como se aquele peixe fosse uma reprodutora de braços humanos, e que o bracinho imaculado fosse os primórdios do desenvolvimento embrionário de uma estranha raça de Braços-Vivos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

querer ser sincero o tempo todo é tão nocivo quanto mentir. eu posso falar uma coisa muito verdadeira contando mentiras ou mentir só falando verdades. quem tentar ser coerente só pode chegar a ser condraditório. tudo é uma bagunça então?

talvez. só acredito na possibilidade de uma postura em que a todo momento a pessoa possa reconhecer aquilo que houve com a distância necessária, como se tivesse sido outra pessoa.

um tempo atrás eu tava pensando que o que faltava aos políticos brasileiros era eles lerem dostoieviski. pra não terem vergonha de falar que roubaram mesmo, que eles são fracos e gananciosos mesmo, que o poder corrompe, que eles se acham no direito de confundirem o público e o privado sem nenhuma culpa, que, apesar de tudo, eles são boas pessoas, ajudaram muita gente por aí. queria vê-los chorando, ajoelhados, implorando perdão, confessando todos os erros.

garanto que todo mundo ia entender. a afirmação da nossa podridão é o único caminho para um mundo mais ético e responsável.

a transparência é a união, um tipo de compaixão pela nossa miséria, um glória a nossa irracionalidade, esse encosto que tá dentro de mim e de você.

domingo, 12 de julho de 2009

de cada dez sonhos que eu tenho sete eu tô dentro d´água. o mar é uma presença viva mesmo. algumas vezes são águas acolhedoras, outras vezes uma água que tenta me afogar.

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mas eu tô te contando isso pra mostrar que o problema da psicanálise não é teórico, é real. problema no sentindo dela nunca conseguir se institucionalizar totalmente, justamente porque ela mexe com o hiato entre o ego e o mundo. qualquer coisa que ela fala não tem como transmitir, a não ser na história de vida da própria pessoa que escuta. conviver com pessoas que não sonham é um saco...

.......

chega um momento no curso de psicologia em que as pessoas começam a falar se gostam ou não da psicanálise. é um momento bem constrangedor.

ninguém escolhe gostar ou não da psicanálise. é uma opinião antecipada sempre. todo mundo passa por ela de certa forma. o que quase ninguém entende é que a cura na psicanálise é a própria destruição da teoria. os fios do marionete são cortados. falar que a psicanálise é uma bobagem pode ser um bom sinal...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

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suco de nada com meia e chinelo produções apresenta:


"MORRO DE AMOR e MORDO DIAMANTE" - chacal


ou




- uma patética tentativa de juntar novela das oito, os diálogos horrorosamente sentimentais dos filmes do Arnaldo Jabor e putaria; escrito ressacando moralmente em alguma manhã de domingo de 2007.

"E depois de fazer tudo que fazem, levantam-se, tomam banho, cobrem-se de talco, perfumam-se, penteiam-se, vestem-se, e assim progressivamente vão voltando a ser o que não são." - Júlio Cortázar, Amor 77.


Aquele que não pode esperar não pode se desesperar. Eu sou jovem e desesperado. Me chateia pessoas de menos de trinta anos tentarem serem serenas, razoáveis, calmas, comedidas. Eu não sou um apologista da molecagem e da irresponsabilidade. Sou só um cara que o coração sempre bate forte. Qual o nome disso, você sabe?

Tento levar uma vida indolor com meia dúzia de rituais, hábitos e certezas. Meu nome é Júlio Caldas e não acredito em mulheres com prisão de ventre, aquelas que acordam emburradas e só falam depois do meio-dia. Acordei com um sonho fresco na cabeça. Volto pra cama de pau duro, fecho os olhos, e ainda sinto o barulho do riacho, o sorriso da Débora Secco, duas déboras seccos, déboras seccos gêmeas, sorridentes, de camisolinha, de cócoras, na beira do riacho num bosque. Me aproximo, sorrio, elas sorriem, vislumbro um nesga de sol regando os tufinhos castanhos da bucetinha, coloco dois dedos: ensopadas. Elas sorriem, morro de amor.

Saio de caso, rua barulhenta, tô feliz e de ressaca, vou encontrar Glorinha, Glorinha é minha amante, aliás eu sou o amante dela, dialogamos em carioquês, tudo isso aqui se passa no rio, tudo isso aqui já foi mostrado antes, mas não sou zona sul, nem pessoas maquiadas. Eu sou o áudio dos filmes brasileiros dos anos 80. A voz da Glorinha é a voz da Fernanda Torres com Lígia Brondi, minha voz é uma mistura de Francisco Cuoco com Antônio Fagundes. Eu sou dentes amarelados e mulheres que fumam e riem alto, bebem, escutam os afrosambas do vinicíus e do badel powell e se orgulham de sofrerem de amor. Pessoas que não conseguem trabalhar porque amam demais. Pessoas constrangedoras, sua tia meio maluca que você só entendeu depois dos vinte anos.

Pego Glorinha para almoçar, toco o interfone, ela desce, Glorinha com olheiras, trinte e sete anos, fala três porras em cada dez palavras, pego sua mão, andamos meia hora até o restaurante, conversamos:

- olha que dia bonito dona glória, eu te amo.
- tô sem fome mas com sede...
- vontade de comer uma comida quente com uma jarra de suco de laranja.
- por que você é assim Júlio Caldas?
- a vida não é uma novela Glorinha.
- antes deu te entender eu não acreditava em você entende, achava que você era só um cara que leu demais, um bovarista, um colecionador de frases e atitudes espirituosas.
- esse seu comentário é demais espirituoso Glorinha, cada um escolhe o charme que merece.
- naquele dia na casa da mamãe, falando pro meu pai que você era um cara à moda antiga, você não se toca no ridículo dessas coisas não porra? isso não se fala...isso você fala beijando mão de puta, ou escrevendo um filme, ou quando você caminha pela praia e se perde nos pensamentos.
- fala dos seus pensamentos que se perdem Glorinha. Não Não, peraí. Eu sou um apanhador de pensamentos que são perdidos. Não deixo eles fugirem, eu sou um artista sem talento que só sobrou a tentativa de apostar no meu coração de ressaca, minha boca seca, minhas frases.
- eu me perco, no trabalho quinta-feira, não, ninguém me entende, aí eu vou pro fundo do escritório e fico pensando a vida daquelas pessoas. Que que eu vou pensar me diga? Por que que eu tenho que achar que ninguém é o que é? Não que elas não sejam o que são...mas por que ninguém é só aquilo que parece ser? Por que que eu tenho que achar que todo mundo tem um lado B, C, D, E, que isso tudo nunca é falado, e que isso se perde, isso se escorre junto com a sujeira do banho do fim dia pelos ralos...olha o carro, para. Me dá sua mão.
- essa mania de querer saber o que se passa na cabeça das pessoas, isso é paranóia você sabia? Você acha que alguém perde seu tempo pensando em você? É isso?
- já passei dessa fase, só acho que ninguém vive no presente, ninguém se concentra, tá todo mundo sozinho e carente.
- aquele dia na sua casa, com sua irmã chegando chateada com o marido dela, por que as pessoas não celebram as brigas? Por que os casais doentes de amor não oficializam o teatro do amor? É isso, descobri meu ponto forte, sou uma pessoa que oficializo o teatro do amor, você entende o que eu tô falando.
- Você brinca com isso porque não sente nada...nunca amou ninguém a não ser seu personagem.
- Ô Glorinha, quem ama então? Isso é mesmo importante será?
- O que?
- o amor...
- é importante pra quem não sabe amar...pro resto do mundo é só seguir em frente sem surpresas, sem decepções, sem calafrios...
- huehuehuehuehue
- ta rindo do que?
- dos calafrios...
- idiota, babaca.

(um sorrisinho exato pra demonstrar que estava brincando, o entendimento de Júlio Caldas, tão inseguro, qualquer derrapada tem que ser compensada com uma demonstração de carinho, carinho, carinho, que palavrinha. segue os próximos 100 metros repetindo a palavra na cabeça, carinho, carinho, carinho, chega ao restaurante, tem medo de quando o garçom perguntar o que querem beber ele responder carinho. Ri da situação que nunca vai acontecer, sempre promete levar esses planos pra frente, dar respostas absurdas pra perguntas corriqueiras. Sonhar é melhor que viver.)

Almoçaram, agora eu tomo conta de história, a ressaca não é desculpa para a auto-ironia canhestra. Vamos em frente. Quero acabar com isso logo, o prazo termina no final da tarde. Chegam em casa, a casa de Júlio Caldas, fazem café, fecham as cortinas, as buzinas, deixam o mundo do lado de fora, a luz que entra é suficiente para criar um oceano de ácaros, plânctons aéreos, puxam o lençol sem escovarem os dentes. Júlio Caldas quer transar, Glorinha sempre quer dormir. Lá pelas três, com a boca seca que parece ter sido soldada com feijão, Júlio Caldas começa roçar a bunda de Glorinha, Glorinha ainda dormindo, mais ou menos né, sempre arrebita a bundinha, sempre espera esse momento, caí um degrau do mundo dos sonhos, tá mais aqui do que lá.

Se beijam com a língua grossa, há dez anos atrás Júlio Caldas explicou que mau hálito é bafo de cocô. Cheiro de comida com café na boca não é mau-hálito, não é bafo, é cheiro de boca. Glorinha esperava muito nessa época, se regozijava quando previa as falas das pessoas, sempre depois disso vinha falar do consumismo, da Oral b, dos produtos que empurram pra nós. Por que algumas pessoas cismam em ter opinião própria hein? Será uma infância infeliz? É querer ser metido a besta? A vaidade? Por que a pessoa não pode acreditar no mundo, nisso daí que tá aí e fala por nós? A gente não lutou tanto pra ter isso? Pra todo mundo se entender, dar bem, não aumentar a voz, não discutir, não discordar, o companheirismo, os tapinhas nas costas?

Júlio Caldas puxa a calcinha de Glorinha pro lado. Ela deve fingir que dorme, ela não deve gemer agora, deve ir gradualmente do silêncio - sussuro - gemidinhos - gemido - articular palavras obcenas - gritos - gemido - gemidinhos - sussuro - silêncio. Ela é a maestra, a vara do maestro...como que chama aquilo...sim, BATUTA, se chama BATUTA, é o pau de Júlio Caldas. Foi mal.

Se a mulher pede mete ele tira, se a mulher pede pára ele põe. Penso onde não sou, sou onde não penso. Lacan tá na moda. A mulher deitada de bruços, a calcinha ajeitada pro lado, os cabelos da nuca que vão se empapando de suor, os braços da mulher que são segurados e puxados para trás, a violência é ela que rege.

Eu saio do apartamento, cansei, não quero mais falar desse casal, sinto como se tivesse saído do cinema num filme que começou na canícula das quatro da tarde e terminou na brisa suave das sete horas já de noite, num filme que ainda por cima dormi...Deixo eles repousando, abraçados, ele por cima dela ainda, o pau amolecendo dentro da vagina, a porra escorrendo quente pelos cantos, morro de amor, mordo diamante, o dia caí, a noite vem.

Sempre não saber o que fazer no dia seguinte.


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FIM